ARTIGO ORIGINAL
Mortalidade por Leucemias Pediátricas no Brasil: Análise Temporal de 2011 a 2021
Mortality from Pediatric Leukemias in Brazil: Temporal Analysis from 2011 to 2021
Mortalidad por Leucemias Pediátricas en el Brasil: Análisis Temporal de 2011 a 2021
https://doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2026v72n2.5425
Anderson Felipe Moura da Silva1; Caroline Evelin Nascimento Kluczynik2; Maryanne Pereira Franco Adriano3; Marilia Gabriela de Azevedo Araújo Santos4
1Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi, Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva. Santa Cruz (RN), Brasil. E-mail: anderson.felipe.090@ufrn.edu.br. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-4677-6296
2UFRN, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Gestão, Trabalho, Educação e Saúde. Natal (RN), Brasil. E-mail: carolinekluczynik@gmail.com. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1790-1230
3Centro Universitário de João Pessoa. João Pessoa (PB), Brasil. E-mail: maryanne8@hotmail.com. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-2054-0840
4Prefeitura Municipal de Parnamirim, Secretaria Municipal de Saúde, Departamento de Atenção Primária. Natal (RN), Brasil. E-mail: enfemeiramariliasantos@gmail.com. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-3130-4720
Endereço para correspondência: Caroline Evelin Nascimento Kluczynik. Rua Doutor Pedro Segundo de Araújo, 1460, apto. 803 – Capim Macio. Natal (RN), Brasil. CEP 59082-040 E-mail: carolinekluczynik@gmail.com
RESUMO
Introdução: As leucemias são neoplasias que acometem as células hematopoiéticas e configuram importante causa de morbimortalidade na infância. Objetivo: Descrever o perfil epidemiológico e analisar a tendência temporal da mortalidade por leucemias em indivíduos de 0 a 19 anos no Brasil, entre 2011 e 2021. Método: Estudo ecológico, descritivo e retrospectivo, com abordagem quantitativa, do tipo série temporal. Foram analisados óbitos por leucemias em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, ocorridos no Brasil entre 2011 e 2021. Os dados foram obtidos de bases nacionais e internacionais de saúde pública. As taxas de mortalidade foram ajustadas por faixa etária. A análise estatística incluiu distribuição de frequências e aplicação do modelo de regressão por pontos de inflexão, com cálculo das variações percentuais anuais, considerando nível de significância de 5% e intervalo de confiança de 95%. Resultados: No período analisado, as leucemias representaram cerca de 28% dos cânceres infantis, totalizando 9.604 óbitos, com maior concentração em 2012. A frequência de óbitos foi maior entre adolescentes do sexo masculino, com idade entre 15 e 19 anos, acometidos por leucemias linfoides, principalmente na Região Sudeste. Observou-se redução média anual de -1,54% nas taxas de mortalidade. Conclusão: Os resultados evidenciam uma tendência de queda da mortalidade por leucemias pediátricas, o que pode refletir o impacto positivo das políticas públicas voltadas ao câncer infantojuvenil. Reforça-se a necessidade de estratégias integradas que promovam diagnóstico precoce e acesso equitativo ao tratamento especializado.
Palavras-chave: Leucemia/epidemiologia; Leucemia/mortalidade; Leucemia Linfoide; Menores de Idade; Adulto Jovem.
ABSTRACT
Introduction: Leukemias are neoplasms that affect hematopoietic cells and represent a significant cause of morbidity and mortality in childhood. Objective: To describe the epidemiological profile and analyze the temporal trend of mortality from leukemia in individuals aged 0 to 19 years in Brazil, between 2011 and 2021. Method: Ecological, descriptive, and retrospective time-series study with a quantitative approach. Deaths from leukemia among children and adolescents aged 0 to 19 years that occurred in Brazil between 2011 and 2021 were analyzed. Data was obtained from national and international public health databases. Mortality rates were adjusted by age group. Statistical analysis included frequency distribution and application of the Joinpoint Regression Model, with calculation of annual percent changes, considering a 5% significance level and a 95% confidence interval. Results: During the period analyzed, leukemias accounted for approximately 28% of childhood cancers, totaling 9,604 deaths, with a peak in 2012. The frequency of deaths was higher among male adolescents aged 15 to 19 years, mainly due to lymphoid leukemias, with emphasis on the Southeast region. An average annual decrease of -1.54% in mortality rates was observed. Conclusion: The results show a declining trend in pediatric leukemia mortality, possibly reflecting the positive impact of national public health policies. The study highlights the need for integrated strategies to promote early diagnosis and ensure equitable access to specialized treatment.
Key words: Leukemia/epidemiology; Leukemia/mortality; Leukemia, Lymphoid; Minors; Young Adult.
RESUMEN
Introducción: Las leucemias son neoplasias que afectan a las células hematopoyéticas y representan una causa significativa de morbilidad y mortalidad en la infancia. Objetivo: Describir el perfil epidemiológico y analizar la tendencia temporal de la mortalidad por leucemias en individuos de 0 a 19 años en el Brasil, entre 2011 y 2021. Método: Estudio ecológico, descriptivo y retrospectivo, de series de tiempo, con enfoque cuantitativo. Se analizaron las muertes por leucemia en niños y adolescentes de 0 a 19 años ocurridas en el Brasil entre 2011 y 2021. Los datos se obtuvieron de bases de datos nacionales e internacionales de salud pública. Las tasas de mortalidad fueron ajustadas por grupo etario. El análisis estadístico incluyó la distribución de frecuencias y la aplicación del modelo de regresión por puntos de inflexión, con el cálculo de los cambios porcentuales anuales, considerando un nivel de significación del 5% y un intervalo de confianza del 95%. Resultados: Durante el período analizado, las leucemias representaron aproximadamente el 28% de los cánceres infantiles, con un total de 9604 muertes, alcanzando su punto máximo en 2012. La frecuencia de muertes fue mayor entre los adolescentes de sexo masculino, de 15 a 19 años, principalmente por leucemias linfoides, con destaque para la región Sudeste. Se observó una disminución media anual del -1,54% en las tasas de mortalidad. Conclusión: Los resultados evidencian una tendencia decreciente de la mortalidad por leucemias pediátricas, lo que puede reflejar el impacto positivo de las políticas públicas nacionales orientadas al combate del cáncer infantil y juvenil. El estudio resalta la necesidad de estrategias integradas que promuevan el diagnóstico temprano y el acceso equitativo al tratamiento especializado.
Palabras clave: Leucemia/epidemiología; Leucemia/mortalidad; Leucemia Linfoide; Menores; Adulto Joven.
INTRODUÇÃO
O câncer infantojuvenil, que abrange a faixa etária de 0 a 19 anos, é atualmente a principal causa de morte por doenças em crianças e adolescentes. Entre as neoplasias, destacam-se as leucemias, que acometem predominantemente as células sanguíneas e os tecidos de sustentação, apresentando distintos tipos histológicos frequentemente associados a fatores demográficos e socioeconômicos da população analisada1.
As leucemias compreendem um grupo heterogêneo de neoplasias originadas por mutações somáticas e replicação monoclonal de células progenitoras hematopoiéticas malignas, de linhagem mieloide ou linfoide, que infiltram a medula óssea, o sangue periférico e outros tecidos. A substituição das células normais por células neoplásicas pode provocar a evolução da doença de forma aguda (rápida) ou crônica (mais lenta)2.
Diversos fatores de risco são associados às leucemias pediátricas, como histórico familiar de câncer, síndromes genéticas (síndrome de Down, síndrome de Li-Fraumeni), imunodeficiências hereditárias (como ataxia telangiectasia, síndrome de Wiskott-Aldrich, síndrome de Bloom, síndrome de Shwachman-Diamond), além de exposição a níveis elevados de radiação, agentes quimioterápicos e substâncias químicas específicas3.
No Brasil, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados, anualmente, 11.540 novos casos de leucemia para o triênio 2023-20252. Na população pediátrica, a mediana da taxa de incidência foi de 154,3 por milhão, representando cerca de 28% de todos os cânceres diagnosticados na infância4. Entre esses casos, predominam a leucemia linfoide aguda, com 75% a 80% das ocorrências, seguida pela leucemia mieloide aguda, com 15% a 20%1.
No tocante à mortalidade, dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)5, do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS/SUS), indicam que, em 2023, ocorreram 751 óbitos por leucemias em crianças e adolescentes no Brasil. As mortes se distribuíram pelas Regiões: Sudeste (246), Nordeste (232), Sul (115), Norte (111) e Centro-Oeste (47).
Em escala global, em 2018, as leucemias corresponderam a 32,5% dos casos de câncer, totalizando 65.111 diagnósticos em crianças e adolescentes de 0 a 14 anos. Além disso, elas foram responsáveis por 39% dos óbitos por neoplasias nessa faixa etária, com 29.241 mortes registradas6. Apesar de estudos evidenciarem estabilidade7 ou redução da mortalidade8, as leucemias pediátricas ainda constituem relevante desafio de saúde pública nacional e internacional.
Diante da suspeita clínica, recomenda-se a realização de hemograma em até 48 horas. A presença de sinais e sintomas inespecíficos, como palidez, fadiga, febre, infecções persistentes, linfadenopatia generalizada, hepatoesplenomegalia, dor óssea e manifestações hemorrágicas (petéquias, hematomas), aliada a achados laboratoriais como anemia, leucopenia, neutropenia ou trombocitopenia, exige encaminhamento imediato para avaliação especializada2,9.
A legislação brasileira, por meio do Estatuto da Pessoa com Câncer10, garante atendimento prioritário e o direito a diagnóstico precoce e tratamento adequado. Essas ações são essenciais para melhorar o prognóstico, aumentar as taxas de sobrevida e reduzir complicações oncológicas11.
A despeito das garantias legais previstas no Estatuto, persistem desigualdades importantes no acesso ao diagnóstico e tratamento das leucemias pediátricas. Em países de baixa e média renda, as taxas de mortalidade permanecem mais elevadas, sobretudo em razão das limitações estruturais e da maior incidência de complicações terapêuticas12. No Brasil, a heterogeneidade regional e as desigualdades socioeconômicas influenciam diretamente os desfechos, evidenciando a necessidade de políticas públicas que ampliem a equidade na atenção oncopediátrica13.
Nesse contexto, os estudos de tendência temporal tornam-se instrumentos relevantes para identificar padrões, avaliar intervenções e subsidiar estratégias de controle e cuidado do câncer infantojuvenil, porque são ferramentas úteis na análise longitudinal de eventos, permitindo identificar padrões, avaliar políticas públicas e orientar ações estratégicas no controle do câncer14. No caso das leucemias pediátricas, a análise das taxas de mortalidade contribui para a compreensão dos determinantes sociais da doença, subsidiando decisões de planejamento e avaliação dos serviços de saúde.
Assim, esta pesquisa justifica-se pela importância em gerar evidências científicas atualizadas sobre a mortalidade por leucemias pediátricas, dada sua expressiva prevalência no Brasil. O estudo também se alinha às diretrizes da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança15, inserida no contexto do SUS, ao buscar identificar tendências e fomentar a formulação de políticas públicas ágeis, ações preventivas e estratégias que favoreçam o aumento da sobrevida.
Dessa forma, o objetivo deste estudo é descrever o perfil epidemiológico e analisar a tendência temporal da mortalidade por leucemias em indivíduos de 0 a 19 anos no Brasil, no período de 2011 a 2021.
MÉTODO
Estudo ecológico, do tipo série temporal, com delineamento descritivo, retrospectivo e abordagem quantitativa. A pesquisa foi conduzida com base nas diretrizes da iniciativa Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)16, conforme recomendações para estudos observacionais em epidemiologia. Os estudos de séries temporais possibilitam a análise longitudinal de eventos ao longo do tempo, permitindo compreender padrões e variações nos indicadores de interesse para a saúde pública14.
O cenário do estudo abrange o território brasileiro. O Brasil é um país de dimensões continentais, localizado na América do Sul, com área territorial de aproximadamente 8.510.345 km², composto por 26 Estados e o Distrito Federal, totalizando 5.570 municípios. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira era de cerca de 203,1 milhões de habitantes em 2022. O país apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,754, sendo classificado como de alto desenvolvimento humano, embora com marcadas desigualdades regionais15.
A população do estudo correspondeu aos óbitos por leucemias registrados entre crianças e adolescentes de 0 a 19 anos de idade, ocorridos no Brasil no período de 2011 a 2021. Foram considerados os óbitos cujas causas básicas foram codificadas de acordo com a 10ª Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10)17, abrangendo os seguintes códigos: C91 (leucemias linfoides), C92 (leucemias mieloides), C93 (leucemias monocíticas), C94 (outras leucemias de tipo especificado) e C95 (leucemia de tipo celular não especificado). Ainda, foram excluídas do estudo quaisquer patologias fora do agrupamento fixo das leucemias no Atlas On-line de Mortalidade do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e da CID-10.
As informações das variáveis sociodemográficas do perfil epidemiológico dos óbitos foram obtidas do Sistema de Informações sobre Mortalidade5, disponível na plataforma DATASUS, do Ministério da Saúde. Já as taxas de mortalidade brasileiras foram extraídas do Atlas On-line da Mortalidade do INCA18, estratificadas por faixas etárias específicas (0–4, 5–9, 10–14 e 15–19 anos), e ajustadas à população do ano de 2010, uma vez que o Censo Demográfico do IBGE19 de 2022 ainda se encontrava indisponível na plataforma no momento da coleta. A padronização por idade se justifica pelas possíveis diferenças nas estruturas etárias populacionais, sendo a idade um fator de risco relevante para leucemias.
A análise dos dados foi realizada em duas etapas. Inicialmente, utilizou-se o software Excel® 365 (Microsoft Corporation, EUA) para a análise descritiva das variáveis, por meio de frequências absolutas e relativas. Em seguida, aplicou-se o modelo de regressão por pontos de inflexão (Joinpoint Regression Model) para a análise de tendência temporal, com o uso do software Joinpoint Regression Program20 (National Cancer Institute, EUA), versão 5.0.2. O ano-calendário foi considerado a variável independente do modelo.
Esse tipo de regressão identifica mudanças estatisticamente significativas na inclinação da tendência, dividindo a série temporal em segmentos unidos por pontos de inflexão (Joinpoint)20. Para cada segmento, é calculada a variação percentual anual (Annual Percent Change – APC), e o modelo testa se a adição de novos pontos melhora significativamente o ajuste, por meio do teste de permutação de Monte Carlo. A medida de tendência global foi obtida pelo cálculo da variação percentual anual média (Average Annual Percent Change – AAPC), ponderada pela duração de cada segmento.
Para a interpretação dos resultados, adotou-se um intervalo de confiança (IC) de 95% e nível de significância de 5% (p≤0,05). As tendências foram classificadas como estacionárias (quando não significativas), crescentes (APC positiva e significativa) ou decrescentes (APC negativa e significativa). Para contornar valores nulos nas variáveis dependentes, foi adotado como ajuste de continuidade o valor de 0,000001, conforme recomendação técnica do software20, sendo este inferior à correção de Laplace e sem impacto relevante nos resultados.
A pesquisa dispensa apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa, pois se trata de um estudo com dados secundários, os quais são públicos e de acesso livre, conforme a Resolução n.º 510/16, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde21.
RESULTADOS
No período analisado, de 2011 a 2021, foram registrados no Brasil 9.604 óbitos por leucemias em crianças e adolescentes (Tabela 1). O maior número de mortes ocorreu no ano de 2012. Observou-se predomínio do sexo masculino, que correspondeu a 57,4% dos óbitos (n=5.512). A faixa etária com maior proporção de mortes foi a de 15 a 19 anos, totalizando 27,3% dos casos (n=2.621), com destaque tanto entre os indivíduos do sexo masculino (28,8%; n=1.587) quanto do sexo feminino (25,3%; n=1.034).
Em relação à escolaridade, a maioria dos registros com informação preenchida correspondeu ao grupo de 4 a 7 anos de estudo (20,5%; n=1.969), embora se destaque a elevada proporção de dados ignorados nesse campo (45,6%; n=4.380), o que limita interpretações mais precisas. Quanto à variável raça/cor, prevaleceram os óbitos entre indivíduos autodeclarados brancos (46,3%; n=4.451), seguidos dos pardos (42,2%; n=4.055).
Tabela 1. Perfil epidemiológico dos óbitos por leucemias pediátricas no Brasil, 2011 a 2021 (n=9.604), por sexo e distribuídos em frequência absoluta (n) e relativa (%)
|
Variáveis sociodemográficas
|
BRASIL |
||||||
|
Masculino |
Feminino |
Total |
|||||
|
n |
% |
n |
% |
n |
% |
||
|
Faixa etária (em anos) |
<1 |
176 |
3,2 |
200 |
4,9 |
376 |
3,9 |
|
1 a 4 |
1.042 |
18,9 |
928 |
22,7 |
1.971 |
20,5 |
|
|
5 a 9 |
1.357 |
24,6 |
913 |
22,3 |
2.270 |
23,6 |
|
|
10 a 14 |
1.350 |
24,5 |
1.016 |
24,8 |
2.366 |
24,6 |
|
|
15 a 19 |
1.587 |
28,8 |
1.034 |
25,3 |
2.621 |
27,3 |
|
|
Escolaridade (anos cursados) |
Nenhuma |
351 |
6,4 |
245 |
6,0 |
596 |
6,2 |
|
1 a 3 |
771 |
14,0 |
517 |
12,6 |
1288 |
13,4 |
|
|
4 a 7 |
1176 |
21,3 |
793 |
19,4 |
1969 |
20,5 |
|
|
8 a 11 |
754 |
13,7 |
540 |
13,2 |
1294 |
13,5 |
|
|
≥12 |
39 |
0,7 |
38 |
0,9 |
77 |
0,8 |
|
|
Ignorado |
2421 |
43,9 |
1958 |
47,9 |
4380 |
45,6 |
|
|
Raça/cor |
Branca |
2505 |
45,4 |
1946 |
47,6 |
4451 |
46,3 |
|
Preta |
283 |
5,1 |
209 |
5,1 |
492 |
5,1 |
|
|
Amarela |
10 |
0,2 |
10 |
0,2 |
20 |
0,2 |
|
|
Parda |
2378 |
43,1 |
1677 |
41,0 |
4055 |
42,2 |
|
|
Indígena |
48 |
0,9 |
39 |
1,0 |
89 |
0,9 |
|
|
Ignorado |
288 |
5,2 |
210 |
5,1 |
498 |
5,2 |
|
|
Óbitos por tipo de leucemia (categoria CID-10) |
C91 |
3280 |
59,5 |
2203 |
53,8 |
5483 |
57,1 |
|
C92 |
1568 |
28,4 |
1379 |
33,7 |
2947 |
30,7 |
|
|
C93 |
17 |
0,3 |
16 |
0,4 |
33 |
0,3 |
|
|
C94 |
20 |
0,4 |
16 |
0,4 |
36 |
0,4 |
|
|
C95 |
627 |
11,4 |
477 |
11,7 |
1104 |
11,5 |
|
|
Total |
5512 |
57,4 |
4091 |
42,6 |
9604 |
100,0 |
|
Fonte: SIM/DATASUS, 20255.
Legendas: C91 – leucemias linfoides; C92 – leucemias mieloides; C93 – leucemias monocíticas; C94 – outras leucemias de tipo especificado; C95 – leucemia de tipo celular não especificado.
Quanto à classificação segundo a CID-10 (Tabela 1), a categoria C91, leucemia linfoide, foi a principal causa de óbitos, respondendo por 57% dos casos (n=5.483), com predomínio em ambos os sexos. Em seguida, destacou-se a categoria C92, leucemia mieloide, responsável por 30,7% dos óbitos (n=2.947), igualmente com distribuição semelhante entre meninas e meninos.
Em relação às taxas de mortalidade brasileiras (Tabela 2), quando observado por faixa etária, em ambos os sexos, verifica-se que o maior registro aconteceu em crianças de 0 a 4 anos (1,73) em 2012, enquanto o menor ocorreu em crianças de 5 a 9 anos (1,17) em 2020.
Tabela 2. Taxas de mortalidade por leucemias pediátricas no Brasil, 2011-2021, segundo a faixa etária, ambos os sexos
|
Faixa etária |
2011 |
2012 |
2013 |
2014 |
2015 |
2016 |
2017 |
2018 |
2019 |
2020 |
2021 |
|
|
0-4 |
1,46 |
1,73 |
1,46 |
1,37 |
1,38 |
1,56 |
1,32 |
1,46 |
1,45 |
1,27 |
1,52 |
|
|
5-9 |
1,45 |
1,55 |
1,43 |
1,4 |
1,3 |
1,59 |
1,38 |
1,37 |
1,38 |
1,17 |
1,23 |
|
|
10-14 |
1,43 |
1,53 |
1,27 |
1,36 |
1,57 |
1,37 |
1,29 |
1,32 |
1,36 |
1,21 |
1,28 |
|
|
15-19 |
1,56 |
1,51 |
1,45 |
1,43 |
1,44 |
1,54 |
1,41 |
1,38 |
1,39 |
1,23 |
1,23 |
|
Fonte: INCA, 20252.
Na análise das taxas de mortalidade estratificadas por grandes Regiões brasileiras, durante o período estudado, considerando a faixa etária pediátrica e ambos os sexos, destaca-se o Norte (2,09) com o maior registro entre os territórios, no ano de 2016. O menor é atribuído ao Sudeste (1,06) no ano 2020 (Tabela 3).
Tabela 3. Taxas ajustadas de mortalidade de leucemias pediátricas segundo território, 2011-2021, segundo a faixa etária, ambos os sexos
|
Território |
2011 |
2012 |
2013 |
2014 |
2015 |
2016 |
2017 |
2018 |
2019 |
2020 |
2021 |
|
Brasil |
1,48 |
1,57 |
1,4 |
1,39 |
1,43 |
1,51 |
1,35 |
1,38 |
1,39 |
1,22 |
1,32 |
|
Centro-Oeste |
1,5 |
1,77 |
1,31 |
1,53 |
1,61 |
1,67 |
1,26 |
1,39 |
1,23 |
1,24 |
1,44 |
|
Nordeste |
1,44 |
1,46 |
1,21 |
1,39 |
1,37 |
1,6 |
1,51 |
1,45 |
1,47 |
1,34 |
1,32 |
|
Norte |
1,68 |
1,68 |
1,9 |
1,77 |
1,98 |
2,09 |
1,58 |
1,81 |
1,71 |
1,56 |
1,78 |
|
Sudeste |
1,35 |
1,53 |
1,39 |
1,2 |
1,36 |
1,31 |
1,14 |
1,25 |
1,21 |
1,06 |
1,16 |
|
Sul |
1,75 |
1,76 |
1,48 |
1,56 |
1,23 |
1,33 |
1,46 |
1,22 |
1,59 |
1,12 |
1,25 |
Fonte: INCA, 20252.
Na Figura 1, apresenta-se a variação das taxas de mortalidade ajustadas por idade por leucemias pediátricas no Brasil e suas grandes Regiões, ao longo do período de 2011 a 2021. A estratificação dos dados por sexo e faixa etária permite identificar diferenças no comportamento temporal da mortalidade, evidenciando padrões regionais e grupos etários mais vulneráveis à doença. Essa análise contribui para a compreensão das desigualdades regionais e orienta estratégias de prevenção e cuidado mais específicas e direcionadas.



Figura 1. Variação das taxas de mortalidade ajustadas por idade de leucemias pediátricas no Brasil e grandes Regiões, segundo sexo e faixa etária, 2011-2021
Fonte: Elaborado pelos autores, adaptado de INCA, 20252.
Legenda: ASR = Age Standardised Incidence Rate ou Taxa de Mortalidade Padronizada por Idade.
A análise da série temporal por meio da regressão Joinpoint para o Brasil (Tabela 4), na faixa etária de 0 a 19 anos, em ambos os sexos, apontou tendência decrescente na mortalidade (APC=-1,54%; IC95% -2,86:-0,22, p<0,05), cuja taxa passou de 1,48 para 1,31/100 mil. Também, a tendência foi de redução significativa para as Regiões Sudeste (APC = -2,46%), Sul (APC = -2,46%) e Nordeste (APC=-3,27%) entre os anos 2016 e 2021. Outrossim, considerado o sexo masculino, Sudeste (APC=-2,77%) e Sul (APC=-3,48%) tiveram tendência decrescente, ao passo que todas as taxas para o sexo feminino se mostraram estacionárias. As Regiões Centro-Oeste e Norte apresentaram estabilidade nas taxas.
Tabela 4. Variação e análise de tendência da mortalidade por leucemias na faixa etária de 0 a 19 anos, no Brasil e nas cinco Regiões, 2011 a 2021
|
Sexo |
Local |
Taxa ajustada |
Regressão Joinpoint |
||||||
|
2011 |
2021 |
Joinpoint1 |
Período |
APC2 |
Lower3 |
Upper4 |
Tendência |
||
|
Ambos |
Brasil |
1,48 |
1,31 |
|
2011-2021 |
-1,54* |
-2,86 |
-0,22 |
Decrescente |
|
Centro-Oeste |
1,5 |
1,44 |
|
2011-2021 |
-2,03 |
-5,82 |
-1,95 |
Estacionária |
|
|
Norte |
1,68 |
1,78 |
|
2011-2021 |
-0,46 |
-3,25 |
2,42 |
Estacionária |
|
|
Nordeste |
1,44 |
1,32 |
2013, 2016 |
2011-2013 |
-8,29 |
-15,7 |
3,39 |
Estacionária |
|
|
2013-2016 |
7,67 |
-1,15 |
13,79 |
Estacionária |
|||||
|
2016-2021 |
-3,27* |
-10,62 |
-0,56 |
Decrescente |
|||||
|
Sudeste |
1,35 |
1,16 |
|
2011-2021 |
-2,46* |
-3,73 |
-1,16 |
Decrescente |
|
|
Sul |
1,75 |
1,25 |
|
2011-2021 |
-3,22* |
-6,28 |
-0,04 |
Decrescente |
|
|
Masculino |
Brasil |
1,67 |
1,46 |
|
2011-2021 |
-1,85* |
-3,48 |
-0,2 |
Decrescente |
|
Centro-Oeste |
1,62 |
1,4 |
|
2011-2021 |
-2,37 |
-5,2 |
0,57 |
Estacionária |
|
|
Norte |
1,91 |
1,86 |
|
2011-2021 |
-156 |
-4,13 |
1,06 |
Estacionária |
|
|
Nordeste |
1,59 |
1,49 |
|
2011-2021 |
0,18 |
-2,71 |
3,15 |
Estacionária |
|
|
Sudeste |
1,55 |
1,35 |
|
2011-2021 |
-2,77* |
-5,16 |
-0,27 |
Decrescente |
|
|
Sul |
2 |
1,42 |
|
2011-2021 |
-3,48* |
-6,16 |
-0,61 |
Decrescente |
|
|
Feminino |
Brasil |
1,28 |
1,15 |
|
2011-2021 |
-1,21 |
-2,91 |
0,56 |
Estacionária |
|
Centro-Oeste |
1,38 |
1,48 |
|
2011-2021 |
-1,49 |
-5,99 |
3,17 |
Estacionária |
|
|
Norte |
1,44 |
1,7 |
|
2011-2021 |
0,83 |
-1,38 |
3,14 |
Estacionária |
|
|
Nordeste |
1,29 |
1,14 |
|
2011-2021 |
-0,27 |
-2,38 |
1,96 |
Estacionária |
|
|
Sudeste |
1,14 |
0,96 |
|
2011-2021 |
-1,99 |
-5,27 |
1,43 |
Estacionária |
|
|
Sul |
1,49 |
1,06 |
|
2011-2021 |
-2,98 |
-7,62 |
1,99 |
Estacionária |
|
Fonte: Elaborado pelos autores, adaptado de INCA, 20252.
Legendas: IC = Intervalo de Confiança; 1Ponto de inflexão; 2Annual Percent Change ou Variação Percentual Anual; 3IC 95% mínimo; 4IC 95% máximo; *p<0,05.
DISCUSSÃO
As leucemias configuram um conjunto de distúrbios onco-hematológicos de elevada frequência na infância, caracterizando-se por origem multicausal e constituindo uma das principais causas de mortalidade por neoplasias em crianças e adolescentes. Dessa forma, compreender seu comportamento epidemiológico, especialmente quanto à mortalidade e às características sociodemográficas associadas, requer a análise integrada de informações populacionais distribuídas ao longo do tempo.
Nesta pesquisa, o perfil epidemiológico dos óbitos por leucemias no Brasil foi predominantemente representado por indivíduos do sexo masculino, faixa etária entre 15 e 19 anos, escolaridade não informada e raça/cor branca. Estudos anteriores indicam maior mortalidade em crianças e adolescentes do sexo masculino4,22, fato possivelmente correlacionado à maior incidência da doença nesse grupo, conforme estimativas recentes23.
A leucemia linfoide foi a principal responsável pelos óbitos nesta amostra, com 57,1% dos casos no Brasil. Globalmente, as leucemias linfoides também representam a maioria dos diagnósticos4. A leucemia mieloide, por sua vez, foi a segunda causa mais frequente de mortalidade, correspondendo a 30,7% no país e 36,4% no Estado. Um estudo conduzido nas capitais dos Estados brasileiros evidenciou tendência decrescente da mortalidade por leucemia linfoide, mieloide e outras leucemias no período de 1980 a 2015, em crianças e adolescentes nas capitais brasileiras8.
Nesse contexto, observou-se no presente estudo uma tendência geral de redução das taxas de mortalidade por leucemias na faixa etária pediátrica no Brasil, entre 2011 e 2021, embora com diferenças regionais significativas. A análise agregada para a população de 0 a 19 anos indicou declínio nas Regiões Sudeste, Sul e Nordeste (intervalo 2016-2021), sendo o Sudeste responsável por 34% dos óbitos por leucemias pediátricas no país. As demais Regiões apresentaram tendências estáveis.
Em relação à raça/cor, nacionalmente, 46,3% dos óbitos foram em indivíduos brancos. Dados do Observatório de Oncologia, no Brasil, indicam que, entre 2008 e 2017, 47% dos óbitos por leucemias pediátricas ocorreram em brancos no país24.
Em escala global, o Brasil apresentou uma taxa de 1,5 óbito por 100 mil habitantes, tendo taxas de mortalidade inferiores às dos países latino-americanos vizinhos, como Equador (3,1) e Peru (3,0), que figuram entre os países com maiores taxas segundo o ranking global6,25. Esse padrão pode estar associado à relação entre o IDH e os indicadores de leucemia, conforme demonstrado por estudo mundial, o qual identificou correlação positiva entre altas taxas de mortalidade e IDH muito elevados e moderados26.
Similarmente, um estudo global sobre câncer em pessoas de 0 a 14 anos identificou que o aumento do IDH está associado ao incremento da incidência e mortalidade por leucemias, refletindo mudanças nos fatores etiológicos6. Um estudo preditivo conduzido por Torres-Roman projetou aumento da mortalidade em alguns países da América Latina, enquanto no Brasil prevê redução nas taxas para o sexo feminino e elevação para o masculino, possivelmente em decorrência de mudanças populacionais e de risco27.
No contexto brasileiro, as desigualdades regionais e socioeconômicas impactam negativamente o acesso a serviços de saúde, apesar da existência do SUS, público e gratuito, que oferece rede assistencial em diferentes níveis tecnológicos. Fatores relacionados à pobreza e desigualdade estrutural e regional comprometem ações de prevenção, diagnóstico e tratamento, afetando a sobrevida dos pacientes28.
Entre as limitações deste estudo destacam-se: a defasagem dos dados populacionais para padronização das taxas, já que, no ato da coleta de dados, o último censo disponível era o de 2010; a defasagem dos dados mundiais de 2020, podendo alterar o ranking entre países; e a utilização de dados secundários, sujeitos a sub-registros e alto percentual de informações ignoradas, especialmente nas variáveis escolaridade e raça/cor, prejudicando a interpretação desses fatores na mortalidade por leucemias.
Por fim, diante da escassez de estudos epidemiológicos recentes sobre mortalidade por leucemias pediátricas no Brasil a partir de séries temporais, recomenda-se o desenvolvimento de pesquisas futuras com foco em tipos específicos de leucemias, visto que este estudo abordou a doença de forma conjunta.
CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo revelaram que o perfil epidemiológico da mortalidade por leucemias em crianças e adolescentes no Brasil se caracteriza pelo predomínio do sexo masculino, faixa etária de 15 a 19 anos, elevada proporção de escolaridade ignorada, predominância da raça/cor branca e maior concentração de óbitos na Região Sudeste.
A leucemia linfoide (CID-10: C91) foi a principal causa de óbito em ambos os sexos. Quanto à tendência temporal, observou-se declínio das taxas de mortalidade no Brasil. Especificamente no sexo masculino, a leucemia linfoide apresentou tendência de queda, enquanto no feminino manteve-se estável. Em comparação internacional, o Brasil apresentou taxas inferiores às registradas nos países com maior mortalidade por leucemias pediátricas.
Esses achados contribuem para o aprimoramento de políticas públicas e estratégias de enfrentamento do câncer infantojuvenil, especialmente no que se refere à vigilância epidemiológica, planejamento de ações preventivas e alocação de recursos. Além disso, fornecem subsídios relevantes para gestores e pesquisadores na formulação de intervenções que visem à redução da mortalidade por leucemias em crianças e adolescentes no país.
CONTRIBUIÇÕES
Todos os autores contribuíram substancialmente na concepção e no planejamento do estudo; na obtenção, análise e interpretação dos dados; na redação e revisão final; e aprovaram a versão final a ser publicada.
DECLARAÇÃO DE CONFLITOS DE INTERESSE
Nada a declarar.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todos os conteúdos subjacentes ao texto do artigo estão contidos no manuscrito.
FONTES DE FINANCIAMENTO
Não há.
REFERÊNCIAS
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Recebido em 8/8/2025
Aprovado em 8/12/2025
Editora associada: Jeane Tomazelli. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-2472-3444
Editora-científica: Anke Bergmann. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777
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