ARTIGO ORIGINAL

 

Fatores Associados à Cessação do Tabagismo em Pacientes Oncológicos do INCA

Factors Associated with Smoking Cessation in Oncological Patients at INCA

Factores Asociados al Cese del Tabaquismo en Pacientes Oncológicos del INCA

 

 

https://doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2026v72n2.5538

 

Gustavo Wagner Mello Ferreira Caboclo1; Liz Maria de Almeida2; Neilane Bertoni dos Reis3

 

1,3Instituto Nacional de Câncer (INCA). Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mails: gustavo.caboclo@inca.gov.br; neilane.bertoni@inca.gov.br. Orcid iD: https://orcid.org/0009-0000-6661-4142; Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-2539-9965

2Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: almeida_liz@hotmail.com. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-2359-0651

 

Endereço para correspondência: Gustavo Wagner Mello Ferreira Caboclo. INCA, Hospital do Câncer I, Centro de Estudos para Tratamento da Dependência de Nicotina. Praça Cruz Vermelha, 23 – Centro. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. CEP 20230-130. E-mail: gustavo.caboclo@inca.gov.br

 

 

RESUMO

Introdução: O tabagismo em pacientes oncológicos acarreta consequências negativas, como redução da sobrevida, aumento do risco de complicações cirúrgicas, menor eficácia terapêutica e maior probabilidade de recidiva. Apesar disso, muitos pacientes com câncer continuam a fumar mesmo após o diagnóstico. Agrava-se esse cenário pelo fato de muitos pacientes não receberem orientações adequadas sobre os riscos relacionados à manutenção do tabagismo durante o tratamento oncológico. Objetivo: Avaliar os fatores sociodemográficos e clínicos associados à cessação do tabagismo entre pacientes oncológicos submetidos ao tratamento da dependência de nicotina, atendidos no Instituto Nacional de Câncer (INCA). Método: Estudo de coorte retrospectiva utilizando dados do prontuário eletrônico do Centro de Estudos para Tratamento da Dependência de Nicotina do INCA. Foram analisadas variáveis sociodemográficas, clínicas e relacionadas ao processo de tratamento. Resultados: De 211 pacientes analisados, 31,8% (n=67) alcançaram cessação, com odds ratio (OR) ajustada de 2,58 (IC 95% 1,31-5,11) para comparecimento a ≥4 consultas, com maior taxa de sucesso entre aqueles submetidos a procedimento cirúrgico. Indivíduos autodeclarados de raça/cor negra e aqueles que não viviam com companheiro(a) apresentaram menor probabilidade de interrupção do tabagismo. Conclusão: Os achados evidenciam a necessidade de sensibilizar e capacitar profissionais de saúde para a abordagem do tabagismo no contexto oncológico, reforçando sua relevância como componente essencial do cuidado integral. É fundamental considerar as desigualdades sociodemográficas no planejamento de estratégias terapêuticas personalizadas, respeitando a singularidade e a vulnerabilidade dos pacientes com câncer.

Palavras-chave: Tabagismo; Abandono do Hábito de Fumar; Demografia; Neoplasias.

 

 

ABSTRACT

Introduction: Smoking in oncological patients leads to negative consequences, such as reduced survival, increased risk of surgical complications, lower therapeutic efficacy, and higher probability of recurrence. Despite this, many cancer patients continue to smoke even after diagnosis. This scenario is aggravated by the fact that many patients do not receive adequate guidance about the risks related to continuing to smoke during oncological treatment. Objective: To evaluate the sociodemographic and clinical factors associated with smoking cessation among oncological patients undergoing treatment for nicotine dependence, treated at the National Cancer Institute (INCA). Method: Retrospective cohort study using data from the electronic medical records of the Center for Studies on Nicotine Dependence Treatment at INCA. Sociodemographic, clinical, and treatment process-related variables were analyzed. Results: Of 211 patients analyzed, 31.8% (n=67) achieved cessation, with an adjusted odds ratio (OR) of 2.58 (95% CI 1.31-5.11) for attendance at ≥4 consultations, with a higher success rate among those who underwent surgical procedures. Self-declared Black individuals and those not living with a partner showed a lower probability of smoking cessation. Conclusion: The findings highlight the need to raise awareness and train health professionals in addressing smoking in the oncological context, reinforcing its relevance as an essential component of comprehensive care. It is fundamental to consider sociodemographic inequalities in planning personalized therapeutic strategies, respecting the uniqueness and vulnerability of cancer patients.

Key words: Tobacco Use Disorder; Smoking Cessation; Demography; Neoplasms.

 

 

RESUMEN

Introducción: El tabaquismo en pacientes oncológicos acarrea consecuencias negativas, como reducción de la supervivencia, aumento del riesgo de complicaciones quirúrgicas, menor eficacia terapéutica y mayor probabilidad de recidiva. A pesar de ello, muchos pacientes con cáncer continúan fumando incluso después del diagnóstico. Este escenario se agrava por el hecho de que muchos pacientes no reciben orientaciones adecuadas sobre los riesgos relacionados con el mantenimiento del tabaquismo durante el tratamiento oncológico. Objetivo: Evaluar los factores sociodemográficos y clínicos asociados al cese del tabaquismo entre pacientes oncológicos sometidos al tratamiento de la dependencia de nicotina, atendidos en el Instituto Nacional del Cáncer (INCA). Método: Estudio de cohorte retrospectiva utilizando datos de la historia clínica electrónica del Centro de Estudios para el Tratamiento de la Dependencia de Nicotina del INCA. Se analizaron variables sociodemográficas, clínicas y relacionadas con el proceso de tratamiento. Resultados: De 211 pacientes analizados, el 31,8% (n=67) logró el cese, con odds ratio (OR) ajustado de 2,58 (IC 95% 1,31-5,11) para asistencia a cuatro o más consultas, con mayor tasa de éxito entre aquellos sometidos a procedimiento quirúrgico. Los individuos autodeclarados de raza/color negra y aquellos que no vivían con pareja presentaron menor probabilidad de interrupción del tabaquismo. Conclusión: Los hallazgos evidencian la necesidad de sensibilizar y capacitar a profesionales de salud para enfocar el tabaquismo en el contexto oncológico, reforzando su relevancia como componente esencial del cuidado integral. Es fundamental considerar las desigualdades sociodemográficas en la planificación de estrategias terapéuticas personalizadas, respetando la singularidad y vulnerabilidad de los pacientes con cáncer.

Palabras clave: Tabaquismo; Cese del Hábito de Fumar; Demografía; Neoplasias.

 

 

INTRODUÇÃO

O tabagismo é uma doença crônica e a maior causa evitável de adoecimento e morte por câncer1. Além disso, o tabagismo em pacientes oncológicos está associado a menor sobrevida global e a maior mortalidade específica por câncer2, efeitos colaterais da radioterapia3, risco de desenvolvimento de outros tumores primários4, chance de complicações cirúrgicas5-7, fadiga, problemas emocionais, dores e pior qualidade de vida em comparação com pacientes que nunca fumaram ou ex-fumantes8. Apesar disso, muitos pacientes oncológicos fumam mesmo após o diagnóstico9,10. Ademais, destaca-se que muitos pacientes não são alertados sobre os riscos de continuar fumando após o diagnóstico de câncer11.

 

Em um estudo populacional, apenas 51,7% dos pacientes foram orientados a parar de fumar por profissionais de saúde12. Não obstante, pacientes oncológicos enfrentam desafios na cessação do tabagismo, com altos níveis de dependência à nicotina13 e maiores dificuldades durante o tratamento14. Verifica-se, ainda, uma baixa percepção dos riscos associados ao tabagismo15. A prevalência de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, nesses pacientes, é alta16. Os sobreviventes de câncer relacionado ao tabaco com sintomas depressivos têm mais chance de continuar fumando17. Assim, os resultados do tratamento do tabagismo podem ser afetados pela desatenção às necessidades específicas desses pacientes18, com baixas taxas de encaminhamento para serviços especializados, além da indisponibilidade de medicamentos auxiliares da cessação19, sendo importante destacar que o diagnóstico do câncer é um momento sensível e de oportunidade para a abordagem terapêutica visando à cessação do tabagismo20,21.

 

Em 2002, o SUS implementou o tratamento do tabagismo, oferecendo métodos de primeira linha de acordo com o Consenso de Abordagem e Tratamento de Fumantes22. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Tabagismo, de 2020, estabelece critérios para diagnóstico e tratamento do tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS), enfatizando intervenções precoces e combinação de abordagens comportamentais e medicamentosas, principalmente para pacientes oncológicos, sem estratégias específicas para esse grupo23.

 

Até onde se sabe, nenhum estudo avaliou o tratamento do tabagismo em centros oncológicos do SUS. O objetivo deste estudo foi avaliar os fatores sociodemográficos e clínicos associados à cessação do tabagismo em pacientes oncológicos do Instituto Nacional de Câncer (INCA), considerando fatores como protocolo de tratamento, apoio familiar e questões socioeconômicas.

 

MÉTODO

Estudo observacional, de coorte retrospectiva, analítico, que utilizou dados de pacientes atendidos no Centro de Estudos para Tratamento da Dependência de Nicotina do INCA. Os dados foram coletados do prontuário eletrônico do Centro, prontuários gerais do INCA e do Registro Hospitalar de Câncer. Os critérios de inclusão foram: pacientes com câncer em qualquer localização segundo a 10ª Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10)24, em qualquer estádio segundo o TNM25, em remissão ou não, independente da data do diagnóstico, que procuraram o Centro de Estudos para Tratamento da Dependência de Nicotina do INCA para tratamento do tabagismo entre 01/01/2019 e 28/02/2023 e que afirmaram ter usado pelo menos um cigarro ou outro produto derivado de tabaco nos últimos 30 dias26,27.

 

Os critérios de exclusão foram: pacientes com registros apenas em prontuários físicos do Centro de Estudos do INCA; pacientes que faleceram em até 180 dias após a primeira consulta; e pacientes sem informação sobre o status de tabagismo seis meses após a consulta inicial. O tratamento dos pacientes seguiu o PCDT do Tabagismo de 202023 e consistiu em aconselhamento estruturado para todos, com apoio medicamentoso, se necessário. Todos os pacientes foram orientados a parar de fumar e iniciar o tratamento, independentemente do estágio motivacional27. O aconselhamento estruturado foi realizado em quatro sessões semanais, seguidas de duas quinzenais e uma mensal, abordando dependência de nicotina e estratégias para parar de fumar. O tratamento indicado envolveu terapia de reposição de nicotina (TRN) e/ou bupropiona, com discussão sobre adesão e efeitos colaterais em cada sessão.

 

O desfecho adotado foi a proporção de pacientes com autorrelato de cessação do tabagismo nos últimos sete dias, aos seis meses, obtida de registros e contatos telefônicos28,29. Esse resultado foi obtido a partir dos registros das fontes de dados. Os pacientes também foram contatados por telefone para obtenção do desfecho. Não foram realizados testes bioquímicos para verificação da abstinência de produtos do tabaco, como monóxido de carbono exalado ou medição de cotinina em fluidos corporais30.

 

As variáveis independentes utilizadas foram: a) Sociodemográficas: sexo, idade, raça/cor, escolaridade, estado civil, ocupação e renda; b) História neoplásica: localização dos tumores (CID-10), estadiamento e tipo, com foco em tumores associados ao tabagismo27, tratamento oncológico prévio (cirurgia, radioterapia ou quimioterapia); c) História clínica: presença de comorbidades como doenças pulmonares (asma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica – DPOC, enfisema, tuberculose), cardiovasculares (hipertensão, infarto, angina), diabetes, depressão e ansiedade; d) História tabagística: idade de início, tempo de tabagismo, tentativas de cessação, dependência de nicotina (teste de Fagerström), cigarros por dia, estágio motivacional e presença de fumantes no domicílio.

 

O teste de Fagerström para dependência de nicotina31 estima a gravidade da dependência e é composto por seis questões referentes ao comportamento de fumar do paciente. A soma dos pontos indica o grau de dependência à nicotina, variando entre 0 e 10: entre 0 e 2 indicam dependência muito leve, entre 3 e 4 indicam dependência leve, 5 indica dependência moderada, 6 e 7 indicam dependência intensa e, entre 8 e 10, indicam dependência muito intensa.

 

O estágio motivacional foi adaptado do modelo de Prochaska, DiClemente & Norcross32. Esses autores propõem que a superação da dependência envolve cinco estágios: pré-contemplação, contemplação, preparação, ação e manutenção, com os indivíduos geralmente reciclando por esses estágios várias vezes. Os estágios foram definidos da seguinte forma: na pré-contemplação, não consideram parar de fumar. Já na contemplação, consideram parar eventualmente. Na preparação, iniciaram mudanças ou revisaram tentativas passadas. Na ação, investiram tempo e energia para parar de fumar. Nesse sentido, cabe reforçar que, no estudo, os estágios de motivação foram categorizados em “pré-contemplação/contemplação” e “preparação/ação”33.

 

A população do estudo foi descrita por meio de tabelas de frequência. O teste qui-quadrado de Pearson comparou variáveis categóricas, enquanto o teste de Kolmogorov-Smirnov avaliou a normalidade das variáveis contínuas. Variáveis com distribuição normal foram descritas por média e desvio-padrão, e as não normais por mediana e intervalo interquartil. Análises de regressão logística bivariada e multivariada estimaram a associação entre as variáveis e o desfecho, com cálculo de odds ratio (OR) bruto e ajustado e intervalo de confiança de 95% (IC 95%). Variáveis com p≤0,20 na análise bivariada foram incluídas no modelo final. As variáveis foram agrupadas para a regressão logística: idade, raça/cor e comparecimento às consultas. O teste de Hosmer-Lemeshow foi realizado para avaliar o ajuste do modelo de regressão logística multivariada. Para todas as análises, foi adotado nível de significância (α) de 5%.

 

As análises estatísticas foram feitas com o software R34 (versão 4.1.3). Uma análise de sensibilidade descritiva comparou os pacientes excluídos (n=44) com o grupo analisado (n=211) para verificar se as perdas foram seletivas. Em adendo, o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do INCA sob o número de parecer 6606693 (CAAE: 75771623.0.00005274), em conformidade com as diretrizes éticas relacionadas a estudos envolvendo seres humanos, de acordo com a Resolução nº. 466/201235 do Conselho Nacional de Saúde.

 

RESULTADOS

A taxa de desistência do tabagismo foi de 31,8% (n=67). Entre os 211 pacientes que participaram do estudo, 114 (54%) eram do sexo feminino. Aproximadamente 40% se identificaram como brancos (n=90, 43,3%), 85 (40,8%) como pardos e 33 (15,9%) como pretos, sendo essa característica estatisticamente relacionada ao status de fumante aos seis meses (p<0,001). Cerca de metade dos pacientes tinha 60 anos ou mais (n=106, 50,2%). Um pouco mais de um terço era casado ou coabitava com um parceiro (n=79, 37,6%) (Tabela 1).

 

Tabela 1. Distribuição dos pacientes oncológicos atendidos no Instituto Nacional de Câncer para tratamento do tabagismo, por status de cessação em seis meses, segundo características sociodemográficas, 2019-2023

 

Fumando após 6 meses

 

Não fumando após 6 meses

 

 

 

 

n

%

 

n

%

 

 

 

Característica

144

68,2

 

67

32

 

 

p

Sexo

 

 

 

 

 

 

 

 

 Masculino

64

44,4

 

33

49,0

 

 

0,514

 Feminino

80

55,6

 

34

51,0

 

 

Idade (anos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 Até 44

20

13,9

 

3

4,5

 

 

0,162

 45-54

23

16,0

 

11

16,4

 

 

 55-64

65

45,1

 

30

44,8

 

 

 65 ou mais

36

25,0

 

23

34,3

 

 

Raça/cor

 

 

 

 

 

 

 

 

 Branca

47

33,3

 

43

64,0

 

 

 

 Parda

71

50,4

 

14

21,0

 

 

<0,001*

 Preta

23

16,3

 

10

15,0

 

 

 

Grau de escolaridadeb

 

 

 

 

 

 

 

 

 Até nível fundamental completo

72

51,8

 

33

52,0

 

 

0,975

 Ensino médio incompleto e acima

67

48,2

 

31

48,0

 

 

Situação conjugalc

 

 

 

 

 

 

 

 

 Casado ou vive com companheiro

48

33,3

 

31

47,0

 

 

 

 Outros

96

66,7

 

35

53,0

 

 

Situação ocupacionald

 

 

 

 

 

 

 

 

 Aposentado

38

30,6

 

21

33,3

 

 

0,414

 Desempregado

49

39,5

 

23

36,5

 

 

 Licenciado

13

10,5

 

11

17,5

 

 

 Empregado

24

19,4

 

8

12,7

 

 

Rendae

 

 

 

 

 

 

 

 

 Até 1 salário-mínimo

62

65,3

 

31

77,5

 

 

0,161

 Mais de 1 salário-mínimo

33

34,7

 

9

22,5

 

 

Legendas: aSem informação n=3 (1,4%); bSem informação n=8 (3,8%), cSem informação n=1 (0,5%), dSem informação n=24 (11,4%); eSem informação n=76 (36,0%); *p<0,05.

 

 

Um pouco mais de um quarto dos pacientes apresentava câncer de cabeça e pescoço (n=58, 27,5%). Cerca de um quinto (n=38, 18,0%) tinha tumores geniturinários, 30 (14,2%) apresentavam tumores do trato digestivo, 30 (14,2%) tinham neoplasias de brônquios e pulmões, 17 (8,1%) tinham câncer de mama e 15 (7,1%) apresentavam tumores hematológicos. Mais de dois terços dos pacientes estavam em estádios avançados da doença (III ou IV) (n=122, 67,8%). Observou-se uma associação estatisticamente significativa entre a realização de cirurgia e a cessação do tabagismo (p=0,016) (Tabela 2).

 

Tabela 2. Distribuição dos pacientes oncológicos atendidos no Instituto Nacional de Câncer para tratamento do tabagismo, por status de cessação em seis meses, segundo características da história neoplásica, 2019-2023

 

Fumando após 6 meses

 

Não fumando após 6 meses

 

 

 

 

n

%

 

n

%

 

 

 

Característica

144

68,2

 

67

31,8

 

 

p

Localização do tumor

 

 

 

 

 

 

 

 

 Cabeça e pescoço

34

23,6

 

24

35,8

 

 

0,508

 Geniturinários

29

20,1

 

9

13,4

 

 

 Digestivos

21

14,6

 

9

13,4

 

 

 Traqueia, brônquios e pulmões

21

14,6

 

9

13,4

 

 

 Mama

12

8,3

 

5

7,5

 

 

 Hematológicos

9

6,3

 

6

9,0

 

 

 Outros

18

12,5

 

5

7,5

 

 

Estadiamentoa

 

 

 

 

 

 

 

 

 0 - I - II

40

32,8

 

18

31,0

 

 

0,966

 III

36

29,5

 

18

31,0

 

 

 IV

46

37,7

 

22

38,0

 

 

Tumor associado ao tabagismob

 

 

 

 

 

 

 

 

 Não

60

41,7

 

24

35,8

 

 

0,419

 Sim

84

58,3

 

43

64,2

 

 

Mais de 1 tumor primárioc

 

 

 

 

 

 

 

 

 Não

130

90,9

 

60

89,6

 

 

0,755

 Sim

13

9,1

 

7

10,4

 

 

Cirurgia

 

 

 

 

 

 

 

 

 Não

128

88,9

 

51

76,1

 

 

0,016*

 Sim

16

11,1

 

16

23,9

 

 

Quimioterapia

 

 

 

 

 

 

 

 

 Não

74

51,4

 

32

47,8

 

 

0,624

 Sim

70

48,6

 

35

52,2

 

 

Radioterapia

 

 

 

 

 

 

 

 

 Não

121

84,0

 

49

73,1

 

 

0,063

 Sim

23

16,0

 

18

26,9

 

 

Legendas: aSem informação n=31 (14,7%); bPulmão, cabeça e pescoço, estômago, rim, pâncreas, fígado, bexiga, colo do útero, colorretal e leucemia mieloide aguda; c Sem informação n=1 (0,5%); *p<0,05.

 

 

Um pouco mais de um quinto dos pacientes autorrelatou depressão (n=45, 21,3%) e 83 (39,3%) autorrelataram ansiedade (Tabela 3).

 

Tabela 3. Distribuição dos pacientes oncológicos atendidos no Instituto Nacional de Câncer para tratamento do tabagismo, por status de cessação em seis meses, segundo características da história clínica, 2019-2023

 

Fumando após 6 meses

 

Não fumando após 6 meses

 

 

 

n

%

 

n

%

 

 

Característica

144

68,2

 

67

31,8

 

p

Comorbidade pulmonara

 

 

 

 

 

 

 

 Não

122

84,7

 

51

76,1

 

0,130

 Sim

22

15,3

 

16

23,9

 

Comorbidade cardiovascularb

 

 

 

 

 

 

 

 Não

88

61,1

 

41

61,2

 

0,991

 Sim

56

38,9

 

26

38,8

 

Diabetes

 

 

 

 

 

 

 

 Não

125

86,8

 

61

91,0

 

0,375

 Sim

19

13,2

 

6

9,0

 

Depressão

 

 

 

 

 

 

 

 Não

111

77,1

 

55

82,1

 

0,409

 Sim

33

22,9

 

12

17,9

 

Ansiedade

 

 

 

 

 

 

 

 Não

86

59,7

 

42

62,7

 

0,682

 Sim

58

40,3

 

25

37,3

 

Legendas: aAsma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica, enfisema, tuberculose; bHipertensão arterial sistêmica, infarto agudo do miocárdio, angina pectoris.

 

No estudo, 75,5% dos pacientes (n=157) já haviam tentado parar de fumar; 99,1% (n=209) usavam cigarro industrializado; 45,4% (n=94) tinham dependência intensa à nicotina; 44% (n=91) fumavam o primeiro cigarro em até 5 minutos após acordar;79,6% (n=160) estavam nos estágios de preparação e ação; 27,8% (n=58) conviviam com fumantes em casa. Destaca-se que comparecer a quatro ou mais consultas esteve associado à cessação do tabagismo em seis meses (p<0,001). Em relação aos tratamentos, destaca-se que: 47,4% (n=100) receberam TRN, 47,4% (n=100) receberam bupropiona, e 5,2% (n=11) não receberam medicamentos (Tabela 4).

 

Tabela 4. Distribuição dos pacientes oncológicos atendidos no Instituto Nacional de Câncer para tratamento do tabagismo, por status de cessação em seis meses, segundo características da história tabagística, 2019-2023

 

Fumando após 6 meses

 

Não fumando após 6 meses

 

 

 

n

%

 

n

%

 

 

Característica

144

68

 

67

31,8

 

p

Idade de início do tabagismo (anos)a

 

 

 

 

 

 

 

 Até 14

56

40,0

 

21

31,8

 

0,257

 Mais de 14

84

60,0

 

45

68,2

 

Tempo total de tabagismo (anos)a

 

 

 

 

 

 

 

 Até 39

50

35,7

 

19

28,8

 

0,326

 Mais de 39

90

64,3

 

47

71,2

 

Tentativas anteriores de cessaçãob

 

 

 

 

 

 

 

 Nunca

37

26,1

 

14

21,2

 

0,450

 1 ou mais

105

73,9

 

52

78,8

 

Teste de Fagerströmc

 

 

 

 

 

 

 

 Até 5

79

55,2

 

34

53,1

 

0,777

 Mais de 5

64

44,8

 

30

46,9

 

Tempo para fumar o 1º cigarro após acordarc

 

 

 

 

 

 

 

 Até 5 min

64

44,7

 

27

42,2

 

0,602

 6 - 30 min

54

37,8

 

22

34,4

 

 Mais de 30 min

25

17,5

 

15

23,4

 

Cigarros por diac,d

 

 

 

 

 

 

 

 Até 20

109

76,2

 

49

76,6

 

0,958

 Mais de 20

34

23,8

 

15

23,4

 

Estágio motivacionale

 

 

 

 

 

 

 

 Pré-contemplação/contemplação

31

22,3

 

10

16,1

 

0,316

 Preparação/ação

108

77,7

 

52

83,9

 

Outros fumantes no domicíliof

 

 

 

 

 

 

 

 Não

99

69,2

 

52

78,8

 

0,152

 Sim

44

30,8

 

14

21,2

 

Comparecimento às consultas

 

 

 

 

 

 

 

.1

58

40,3

 

13

19,4

 

 

 2 - 3

51

35,4

 

21

31,3

 

<0,001*

 4 ou mais

35

24,3

 

33

49,3

 

 

Tratamento proposto

 

 

 

 

 

 

 

 Apenas aconselhamento

6

4,2

 

5

7,5

 

 

 Aconselhamento + TRN isolada/combinada

70

48,6

 

30

44,8

 

0,578

 Aconselhamento + bupropiona (±TRN isolada/combinada)

68

47,2

 

32

47,7

 

 

Legendas: TRN = terapia de reposição de nicotina (adesivos, gomas e/ou pastilhas); aSem informação n=5 (2,4%); bSem informação n=3 (1,4%); cSem informação n=4 (1,9%); dUso exclusivo de cachimbo n=2 (1,0%); eSem informação n=10 (4,7%); f Sem informação n=2 (1,0%); *p<0,05.

 

 

A mediana de comparecimento às consultas foi 2. Nas análises bivariadas, destacaram-se as seguintes variáveis: raça/cor preta associou-se à menor cessação (OR bruta 0,28; p=0,001), cirurgia à maior (OR 2,51; p=0,018) e ≥4 consultas a um maior sucesso (OR 3,02; p=0,001) (Tabela 5).

 

Tabela 5. Razão de chances bruta e ajustada de cessação de tabagismo em seis meses de pacientes oncológicos atendidos no Instituto Nacional de Câncer, 2019-2023

Característica

OR bruta

 (IC 95%)

p

OR ajustada

IC 95%

p

Idade (anos)

 

 

 

 

 

 

 Até 60

1,00

-

 

1,00

-

 

 61 ou mais

1,46

0,82 - 2,64

0,200

1,25

0,63 - 2,49

0,515

Raça/cor

 

 

 

 

 

 

 Branca

1,00

-

 

1,00

-

 

 Negra

0,28

0,15 - 0,51

<0,001*

0,37

0,19 - 0,72

0,003*

Situação conjugal

 

 

 

 

 

 

 Casado ou vive com companheiro

1,00

-

 

1,00

-

 

 Outros

0,56

0,31 - 1,02

0,060

0,46

0,23 - 0,92

0,030*

Comorbidade pulmonara

 

 

 

 

 

 

 Não

1,00

-

 

1,00

-

 

 Sim

1,74

0,84 - 3,57

0,133

1,36

0,57 - 3,19

0,476

Cirurgia

 

 

 

 

 

 

 Não

1,00

-

 

1,00

-

 

 Sim

2,51

1,16 - 5,43

0,018*

2,48

1,04 - 5,96

0,040*

Radioterapia

 

 

 

 

 

 

 Não

1,00

-

 

1,00

-

 

 Sim

1,93

0,95 - 3,89

0,065

2,05

0,92 - 4,56

0,077

Outros fumantes no domicílio

 

 

 

 

 

 

 Não

1,00

-

 

1,00

-

 

 Sim

0,61

0,30 - 1,18

0,154

0,48

0,21 - 1,03

0,069

Comparecimento às consultas

 

 

 

 

 

 

 Até 3

1,00

-

 

1,00

-

 

 4 ou mais

3,02

1,64 - 5,61

<0,001*

2,58

1,31 - 5,11

0,006*

Legendas: OR = odds ratio; IC 95% = intervalo de confiança 95%; aAsma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica, enfisema, tuberculose; *p<0,05.

 

 

A variável renda foi excluída do modelo em razão da alta ausência de dados (36%). O modelo indicou que pacientes negros tiveram 63% menos chance de parar de fumar que brancos (OR=0,37; p=0,003); os sem companheiro, 54% menos que casados (OR=0,46; p=0,030); pacientes submetidos à cirurgia e os que participaram de quatro ou mais consultas tiveram maior chance de cessar o tabagismo (OR=2,48; p=0,040; OR=2,58; p=0,006). Viver com fumantes reduziu essa chance, sem significância estatística (OR=0,48; p=0,069). O teste de Hosmer-Lemeshow indicou bom ajuste (p=0,306). A análise de perdas entre os 211 casos estudados e os 44 excluídos não mostrou diferenças significativas nas variáveis avaliadas (p≤0,05).

 

DISCUSSÃO

Este estudo analisou fatores associados à efetividade do tratamento para cessar o tabagismo em pacientes oncológicos, grupo com desafios específicos. O tabagismo agrava o prognóstico e a qualidade de vida, tornando o tema essencial. A pesquisa, baseada em autores que abordam a relação entre câncer e tabagismo, reforça a relevância do tema e contribui para estratégias terapêuticas mais eficazes.

 

A proporção de cessação do tabagismo em seis meses foi de 31,8%. Pacientes brancos, operados durante o tratamento, que viviam com companheiro e compareceram a pelo menos quatro consultas tiveram maior chance de parar de fumar. Em um estudo prospectivo com 71 pacientes com câncer que utilizou abordagem comportamental consistente em sessões semanais de aconselhamento em conjunto com farmacoterapia (TRN ou bupropiona), a taxa de abstinência observada em seis meses foi de 32%. Assim como neste estudo, a maioria dos pacientes tinha tumores associados ao tabagismo, já tinha tentado parar de fumar ao menos uma vez e estava nos estágios motivacionais de preparação ou ação36.

 

Em outro estudo com pacientes oncológicos que utilizou acompanhamento telefônico e TRN, a proporção de cessação foi de 26%. Nesse trabalho, somente 16% dos pacientes completaram quatro ou mais consultas37. Já nesta pesquisa, 32,2% dos pacientes compareceram a quatro ou mais consultas, o que explica a maior proporção de cessação encontrada.

 

Um estudo em um centro oncológico nos EUA encontrou uma proporção de cessação do tabagismo de 30,5% entre os pacientes tratados. Mais de 60% receberam pelo menos duas sessões de aconselhamento, o que aumentou a chance de parar de fumar após seis meses28.

 

Um estudo norte-americano com 2.652 pacientes com câncer encontrou proporção de cessação de tabagismo em seis meses de 45,8%. Os participantes receberam uma consulta inicial presencial e seis a oito consultas adicionais, principalmente por telefone, durante 8 a 12 semanas, além de farmacoterapia por até 12 semanas. Diferente do presente estudo, a maioria era branca (82,1%), tinha menor dependência nicotínica (Fagerström: 4,5 vs. 5,16) e menos anos de tabagismo (34,5 vs. 42,94). Mais de 90% recebeu farmacoterapia. O número de consultas pode ter contribuído para a taxa de abstinência superior a deste estudo14.

 

Um estudo norte-americano entre pacientes com câncer observou que pacientes de raça/cor branca apresentaram uma chance maior de parar de fumar38. Outros estudos em populações oncológicas não observaram associação entre raça/cor e cessação do tabagismo28,39,40. Uma revisão sistemática observou que, comparados à raça branca, indivíduos de raça negra apresentavam piores níveis de comunicação e de decisão compartilhada com os profissionais de saúde41. Já foi descrito em populações não oncológicas que os indivíduos de raça/cor negra foram menos incentivados a parar de fumar42, compareceram menos à consulta inicial em ensaios clínicos de cessação do tabagismo43 e tiveram maior chance de sofrer discriminação por parte de profissionais de saúde44,45 quando comparados com pacientes de raça/cor branca, o que pode impactar a adesão ao tratamento. Indivíduos que sofreram práticas discriminatórias dentro ou fora dos sistemas de saúde podem reagir com ansiedade e reações de esquiva a situações estressantes, gerando até mesmo subutilização dos sistemas de saúde.

 

A situação conjugal é uma variável relacionada ao apoio social. Os parceiros dos pacientes fumantes podem desempenhar papel fundamental no processo de mudança de comportamento dos pacientes que tentam parar de fumar40. Os resultados deste estudo vão ao encontro de outros estudos que revelaram que pacientes oncológicos que moram com companheiro tiveram maior chance de parar de fumar39,40. Pacientes sem companheiro são considerados de alto risco para continuar fumando e devem receber atenção especial durante o tratamento do tabagismo39.

 

A realização de cirurgia aumentou a chance de cessação do tabagismo. Essa associação já foi mostrada por Hawari et al. em trabalho com 350 pacientes em um centro oncológico na Jordânia, onde ser submetido a cirurgia reduziu a chance de o paciente continuar fumando após o diagnóstico de câncer46. Em outro estudo, pacientes submetidos à cirurgia tiveram chance 70% menor de parar de fumar10. Carroll et al. não encontraram associação entre o tratamento recebido para o câncer e o desfecho do tratamento do tabagismo38. Possíveis explicações são que os pacientes submetidos à cirurgia são fortemente encorajados a parar de fumar pela equipe multiprofissional, em virtude da maior ocorrência de complicações pós-cirúrgicas em pacientes tabagistas5, ou não fumam em razão da própria internação ou de incapacidade temporária para fumar após o procedimento47.

 

A intensidade e a frequência das intervenções para cessação do tabagismo têm sido descritas como essenciais para aumentar as taxas de abstinência29,39. Estudos prévios observaram que o comparecimento a um maior número de consultas de cessação do tabagismo aumentou a chance de parar de fumar28,38. Em pacientes com câncer de pulmão submetidos a tratamento cirúrgico, o comparecimento a um maior número de consultas pré-operatórias aumentou as chances de cessação do tabagismo48.

 

O protocolo de tratamento do tabagismo inicia com quatro sessões semanais intensivas, onde o paciente define uma data para parar de fumar e recebe apoio medicamentoso, se necessário. Comparecer a menos de quatro sessões pode comprometer o resultado. No entanto, durante o tratamento do câncer, que pode incluir internação e terapias concomitantes, comparecer às sessões semanais é um desafio. Flexibilizar o intervalo entre consultas e realizar teleconsultas pode aumentar a adesão ao tratamento.

 

Este estudo possui limitações. A primeira é que o estudo foi retrospectivo e pode ter ocorrido viés de classificação por erros de registro no prontuário, em estudo de coorte retrospectiva. As taxas de cessação foram autorreferidas e não foi realizada a validação bioquímica da cessação do tabagismo. Contudo, um trabalho revelou que até 91,9% dos pacientes que afirmaram ter parado de fumar em questionários autopreenchidos realmente haviam parado de fumar de acordo com a validação bioquímica. Dessa forma, a validação bioquímica demonstra que as taxas autorrelatadas podem ser ligeiramente superestimadas49.

 

Não foi investigada a intenção do tratamento oncológico, se curativo ou paliativo, o que poderia influenciar no engajamento ao programa50 e, por conseguinte, nas taxas de cessação31. Também não foi avaliada a possível associação entre internações hospitalares durante o tratamento do tabagismo e o desfecho. Um estudo mostrou que os pacientes que foram hospitalizados apresentaram uma maior chance de cessação do uso de tabaco. Possivelmente, os pacientes têm menores oportunidades de usar o tabaco durante a internação e podem não se sentir bem fisicamente para fumar. Além disso, possuem mais contatos com profissionais de saúde durante a internação, o que pode estimulá-los a permanecer sem fumar37.

 

Ademais, o INCA é uma instituição oncológica vinculada ao SUS, cujos resultados se aplicam a populações semelhantes. O número reduzido de pacientes pode ter ocultado diferenças estatisticamente significativas. Portanto, estudos com populações maiores são necessários para estimar melhor as associações entre as variáveis e a cessação do tabagismo em pacientes com câncer.

 

CONCLUSÃO

O estudo identificou fatores associados à cessação do tabagismo em pacientes oncológicos. Indivíduos negros e sem companheiro tiveram menor chance de cessar o tabagismo, enquanto aqueles submetidos à cirurgia e com maior presença nas sessões apresentaram maior probabilidade de parar de fumar.

 

Os resultados destacam a importância de os profissionais de saúde encaminharem e incentivarem pacientes oncológicos fumantes a aderirem ao tratamento, já que a frequência às sessões foi decisiva. Também é essencial considerar desigualdades sociodemográficas que afetam o acesso, a adesão e o prognóstico desses pacientes.

 

 

CONTRIBUIÇÕES

Todos os autores contribuíram na concepção e no delineamento do estudo; na obtenção, análise e interpretação dos dados; na redação e revisão crítica; e aprovaram a versão final do manuscrito.

 

 

DECLARAÇÃO DE CONFLITOS DE INTERESSE

Nada a declarar.

 

 

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todos os conteúdos subjacentes ao texto do artigo estão contidos no manuscrito.

 

 

FONTES DE FINANCIAMENTO

Não há.

 

 

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Recebido em 3/11/2025

Aprovado em 8/1/2026

 

Editora-científica: Anke Bergmann. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777

 

 

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