ARTIGO DE OPINIÃO

 

Estagnação Epidemiológica do Tabagismo e a Urgência de Novas Estratégias de Comunicação com o Fumante

Epidemiological Stagnation of Smoking and the Urgency of new Communication Strategies with Smokers

Estancamiento Epidemiológico del Tabaquismo y la Urgencia de Nuevas Estrategias de Comunicación con los Fumadores

 

 

https://doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2026v72n2.5566

 

Felipe Lacerda Mendes1; Valeska Carvalho Figueiredo2; Claudia Garcia Serpa Osorio de Castro3

 

1Instituto Nacional de Câncer (INCA). Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: felmendes@yahoo.com.br. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-1071-1597

2,3Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp). Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mails: valeskacf@gmail.com; claudiaosorio.soc@gmail.com. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0001-8617-5386; Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-4875-7216

 

Endereço para correspondência: Felipe Lacerda Mendes. Avenida Maracanã, 1.523, apto. 801 – Tijuca. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. CEP 20511-000. E-mail: felmendes@yahoo.com.br

 

 

INTRODUÇÃO

A Política Nacional de Controle do Tabaco (PNCT)1 tornou-se um modelo de intervenção exitoso na conjuntura da saúde pública. Outros programas de prevenção e combate às doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)2, como os relacionados às bebidas alcoólicas e à alimentação não saudável, vêm trilhando o caminho percorrido pelo controle do tabaco nos campos legislativo, regulatório e da promoção da saúde.

 

No caso do tabaco, com a criação de uma comissão governamental gestora da PNCT em 20033 e a consequente adoção de políticas multisetoriais – a definição de preços mínimos para os cigarros; o aprimoramento das advertências sanitárias nas embalagens dos produtos; e as proibições da publicidade de tabaco nos meios de comunicação e de fumar em recintos coletivos4 –, nos anos subsequentes, a prevalência de fumantes reduziu significativamente5.

 

No entanto, o tabagismo ainda mata 173 mil fumantes anualmente, e existem cerca de 22 milhões de fumantes brasileiros6 – que, em sua maioria, consomem cigarros diariamente e estão nos estratos sociais de baixas renda e escolaridade – sujeitos a graves enfermidades, com repercussões sociais e econômicas para suas famílias e para a sociedade7,8.

 

Análises temporais de inquéritos e pesquisas mostram dados preocupantes no cenário epidemiológico e acendem um alerta entre gestores e pesquisadores. A desaceleração e a inércia na queda do percentual de fumantes adultos entre 2018 e 2024, medida pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel)8, parece apontar para a estagnação dos efeitos das medidas implementadas. Ainda, as projeções indicam que a meta de redução da prevalência de 40% até 2030, prevista no plano de enfrentamento das DCNT, não será alcançada9.

 

Além disso, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) revelou um aumento na proporção de fumantes atuais entre adolescentes (6,6% em 2015 para 6,8% em 2019), com destaque paras meninas e para a faixa de 16-17 anos10. Esse aumento pode ter causas variadas e combinadas, tais como: a facilidade de compra de cigarros nas plataformas de venda on-line11 e no comércio formal, inclusive por unidade (ou a varejo)12; a publicidade nas redes sociais13; o enfraquecimento da política de taxação, que amplia a acessibilidade econômica; e a chegada ilegal de dispositivos eletrônicos para fumar (DEF) no mercado, que já compõem as estatísticas – segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas 2025, 8,8% da população com 14 anos ou mais experimentaram esse produto e 5,6% referiram uso no último ano14. Um possível reflexo desse contexto foi apontado pela Pesquisa Nacional de Saúde (PNS): entre fumantes de 18 a 24 anos, a prevalência manteve-se estável entre 2013 e 2019, em oposição ao declínio observado entre pessoas mais velhas5. A esse cenário epidemiológico, somam-se a disponibilidade do comércio ilícito de produtos de tabaco, que ocupa 38,6% do mercado nacional15, e o aumento do número de fumantes durante a pandemia da covid-1916.

 

No tocante à cessação do tabagismo, a PNS verificou uma variação negativa de 8,8% nas tentativas de parar de fumar entre 2013 e 2019. Essa redução ocorreu especialmente nos grupos de menor escolaridade e na faixa de 40 a 59 anos, nos quais está concentrada boa parte dos fumantes17. Outra análise da PNS verificou que, apesar do aumento das consultas entre fumantes por causas diversas de saúde, a proporção daqueles que receberam aconselhamento para parar de fumar caiu de 57,1% em 2008 para 51% em 2019. Isso significa que, em 2019, os profissionais de saúde perderam a oportunidade de sensibilizar e orientar dez milhões de fumantes18.

 

DESENVOLVIMENTO

Esse cenário epidemiológico aponta para a necessidade e urgência da adoção de novas estratégias de comunicação com o fumante, baseadas em marketing social, com narrativas voltadas a ampliar seu conhecimento e mudar seu comportamento, fortalecendo o engajamento para a cessação19. O uso de tecnologias digitais (serviço de mensagens curtas – SMS, aplicativos interativos, chatbots etc.) tem se mostrado um caminho interessante para estimular fumantes em sua decisão de abandonar o tabagismo e para auxiliar programas de tratamento para cessação20. Se por um lado são intervenções de amplo alcance, de outro demandam investimentos em desenvolvimento tecnológico, manutenção da estrutura, proteção de dados, entre outros.

 

Todavia, soluções inovadoras e não tecnológicas também têm se mostrado eficientes. O Brasil tem uma respeitada experiência com as advertências sanitárias impressas nos maços de cigarros21. Desde 2001, as frases e imagens exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apresentam uma abordagem negativa (ou de perda) sobre os efeitos do tabagismo à saúde, cujos objetivos são: informar; causar repulsa no consumidor; e contrastar com os atraentes elementos gráficos das marcas de cigarros. A medida da Anvisa transferiu para os fabricantes a responsabilidade e os custos de produção e de impressão desses conjuntos gráficos sanitários.

 

Ademais, evidências sugerem que as advertências sanitárias, com abordagens negativas que despertam medo e repulsa, devem estar acompanhadas por recomendações comportamentais positivas, que ajudem o fumante a encontrar saídas para sua dependência química e psíquica22. Nessa direção, a experiência do Canadá com o uso de folhetos sobre a cessação de fumar (inserts), inseridos na parte interna dos maços de cigarros, mostra-se uma alternativa regulatória viável e de baixo (ou zero) custo para os governos, fortalecendo as estratégias de orientação e estímulo aos fumantes23.

 

As mensagens dos folhetos canadenses trazem duas abordagens positivas distintas: (1) orientações sobre como parar de fumar (sozinho ou com apoio especializado), que promovem no fumante a crença na capacidade de mudar seu comportamento em uma direção mais saudável (percepção da autoeficácia)24; (2) os benefícios da cessação, que estimulam a crença de que a mudança comportamental reduzirá o risco de consequências negativas para a saúde (percepção da eficácia da resposta)24, criando motivação para a mudança de hábito. Nesse sentido, a literatura sobre os inserts apresenta resultados positivos: aumento nas tentativas de parar de fumar, elevação na procura por serviços de tratamento, e apoio para a manutenção da abstinência de fumar25.

 

Considerando que os fumantes brasileiros estão conscientes dos malefícios do tabagismo à saúde (por meio de campanhas educativas e pelas advertências sanitárias)5, é provável que estratégias de comunicação que destaquem os benefícios da cessação de fumar (reforçando a percepção da eficácia da resposta) e indiquem atitudes que os fumantes podem tomar sozinhos ou os serviços de saúde onde podem acessar o tratamento (promovendo a percepção da autoeficácia) possam ajudar a reverter o cenário epidemiológico. Nessa última hipótese, faz-se primordial que o serviço de tratamento alcance mais unidades de saúde e seja capaz de absorver um quantitativo maior de fumantes com perfis variados de dependência à nicotina26.

 

Ainda, a Anvisa teria de lidar com desafios decorrentes da implementação dessa medida, como fiscalizar a devida inclusão dos folhetos nos maços e a sua distribuição de forma simultânea ou rotativa, como prevê a Lei n.º 9.294/1996, e uma provável resistência da indústria do tabaco, incluindo a judicialização, tal como ocorre com outras intervenções de regulação dos seus produtos27.

 

CONCLUSÃO

O tabagismo é um problema de saúde pública longe de estar resolvido, que não pode pagar o preço do sucesso dos resultados da sua política, que pode ser efêmero. Caso não haja priorização na agenda política e legislativa, nem investimentos em inovação e em experiências comprovadas como eficazes, é possível que futuros inquéritos populacionais indiquem uma reversão da curva descendente da prevalência de fumantes, com consequências sociais e econômicas negativas para toda a sociedade.

 

A adoção de novas estratégias de comunicação com o fumante pode ser útil. A maioria dos fumantes possui um baixo grau de dependência à nicotina e declarou à PNS que não utiliza nenhum tipo de apoio ou aconselhamento quando tenta parar de fumar. Isso significa que há uma janela de oportunidade para incentivá-los a abandonar o tabagismo com dicas práticas para o cotidiano e para orientá-los buscar apoio da rede pública de saúde.

 

A inclusão de inserts nas embalagens é uma medida custo-efetiva e que está no escopo das atribuições da Anvisa, amparada pela Lei n.º 9.782/1999, que garante à agência a competência para regulamentar e controlar os produtos de tabaco, e pela Lei n.º 9.924/1996, que regula as mensagens de saúde impressas nas embalagens dos produtos de tabaco. Diante do conhecimento científico existente e da premência de novas estratégias educativas para os fumantes, torna-se fundamental que estudos nacionais analisem formas e características de comunicação com abordagem positiva adequadas ao perfil da população fumante nacional.

 

 

CONTRIBUIÇÕES

Todos os autores contribuíram substancialmente na concepção e no planejamento do estudo; na obtenção, análise e interpretação dos dados; na redação e revisão crítica; e aprovaram a versão final a ser publicada.

 

 

DECLARAÇÃO DE CONFLITOS DE INTERESSE

Nada a declarar.

 

 

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todos os conteúdos subjacentes ao texto do artigo estão contidos no manuscrito.

 

 

FONTES DE FINANCIAMENTO

Não há.

 

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 13/11/2025

Aprovado em 29/12/2025

 

Editora-científica: Anke Bergmann. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777

 

 

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