RESENHA
Prevenção do Câncer Relacionado ao Álcool: Resenha dos Manuais da Iarc sobre Prevenção de Câncer Volumes 20A e 20B
Prevention of Alcohol-Related Cancers: Book Review of the IARC Handbooks of Cancer Prevention Volumes 20A and 20B
Prevención del Cáncer Relacionado con el Alcohol: Reseña de los Manuales de la Iarc sobre Prevención del Cáncer Volúmenes 20A y 20B
https://doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2026v72n2.5665
Thaís Cristina Esteves-Pereira1; Adriana Tavares de Moraes Atty2; Alan Roger Santos-Silva3
1,3Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Departamento de Diagnóstico Oral. Piracicaba (SP), Brasil. E-mails: thasicep@gmail.com; alan@unicamp.br. https://orcid.org/0000-0002-4559-9788; https://orcid.org/0000-0003-2040-6617
2Instituto Nacional de Câncer (INCA), Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Redes. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: aatty@inca.gov.br. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-2271-746X
Endereço para correspondência: Alan Roger Santos-Silva. Unicamp, Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Departamento de Diagnóstico Oral. Avenida Limeira, 901 – Areião. Piracicaba (SP), Brasil. CEP 13414-903. E-mail: alan@unicamp.br
O câncer é uma doença crônica não transmissível, multifatorial, que pode, em muitos casos, ser prevenida por meio da adoção de hábitos e estilo de vida saudáveis1. A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc, International Agency for Research on Cancer) fornece, desde 1995, revisões abrangentes e avaliações sobre a robustez das evidências científicas relativas às estratégias de prevenção do câncer por meio da série Iarc Handbooks of Cancer Prevention (Manuais da Iarc sobre Prevenção de Câncer). Os Manuais da Iarc apresentam uma síntese das evidências epidemiológicas e experimentais para subsidiar políticas eficazes de prevenção do câncer voltadas à tomada de decisão em saúde pública. É, portanto, de fundamental importância a disseminação desse material.
Entre 2022 e 2025, dois Grupos de Trabalho multidisciplinares compostos por especialistas internacionais desenvolveram um volume em duas partes para revisar as evidências de que intervenções em políticas sobre álcool podem reduzir a incidência de câncer relacionado ao consumo de bebidas alcoólicas. O Volume 20A – Redução ou Cessação do Consumo de Bebidas Alcoólicas – concentra-se nas evidências epidemiológicas e mecanísticas que relacionam a redução ou cessação do consumo de álcool ao risco de câncer2,3. O Volume 20B – Políticas sobre Álcool – aborda as evidências relativas às políticas de controle do álcool em nível populacional para redução do consumo4,5.
Em 2019, o consumo de álcool nas Américas atingiu uma estimativa de 7,5 litros per capita6. No Brasil, o consumo pesado (definido como ≥ 4 doses para mulheres e ≥ 5 para homens em uma mesma ocasião nos últimos 30 dias) aumentou de 15,7% em 2006 para 20,8% em 20237-9. Na América Latina e no Caribe, em torno de 39.300 novos casos de câncer em 2020 foram atribuídos ao consumo de álcool10, demonstrando a magnitude desse fator de risco para a saúde pública. Nesse contexto, os Volumes 20A e 20B dos Manuais da Iarc são particularmente relevantes para pesquisadores, clínicos e formuladores de políticas, pois apresentam uma abordagem integrada para avaliar as evidências sobre os efeitos das mudanças no consumo de álcool no risco de câncer e sobre as ações em nível de políticas voltadas à redução ou cessação do consumo de álcool. É importante destacar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já estabeleceu que nenhuma quantidade de consumo de álcool é considerada segura11.
Volume 20A: Redução ou Cessação do Consumo de Bebidas Alcoólicas
O Volume 20A está organizado em cinco capítulos, abrangendo a caracterização do consumo de bebidas alcoólicas e a proporção de casos de câncer atribuíveis a esse consumo, as evidências epidemiológicas e mecanísticas sobre a redução ou cessação do consumo de álcool e o risco de câncer relacionado ao álcool, além das avaliações dessas evidências2,3.
O Capítulo 1 define as bebidas alcoólicas, seus tóxicos e aspectos nutricionais. Também apresenta o monitoramento do consumo de álcool em diferentes países, por Região da OMS e globalmente. Fatores individuais, como idade, estado de saúde, tabagismo, papéis sociais, religião e acessibilidade, bem como fatores comunitários, como disponibilidade, foram identificados como determinantes da redução ou cessação.
O Capítulo 2 discute considerações metodológicas centrais na avaliação das evidências e apresenta os dados sobre as associações entre redução, cessação e duração da cessação do consumo de bebidas alcoólicas e o risco de câncer. O conjunto de evidências é suficiente para concluir que a redução ou cessação do consumo de álcool leva à diminuição dos cânceres de cavidade oral e esôfago, mas é limitado para os cânceres de laringe, colorretal e mama feminina, e inadequado para os cânceres de faringe e fígado.
No Capítulo 3, o Grupo de Trabalho analisou os dados mecanísticos sobre a carcinogênese relacionada ao álcool e o potencial de reversão desses mecanismos após a cessação do consumo de álcool. Concluiu-se que a cessação do consumo de álcool reduz três mecanismos carcinogênicos associados ao consumo de álcool: eliminação dos níveis de acetaldeído no trato aerodigestivo superior e no cólon; reversão do aumento da permeabilidade intestinal e da translocação microbiana; e redução dos danos ao DNA.
O Capítulo 4 complementa os capítulos anteriores ao apresentar o resumo de cada um deles. Já o Capítulo 5 fornece as avaliações, que consistem em uma interpretação concisa das evidências descritas nos capítulos precedentes.
Volume 20B: Políticas sobre Álcool
Este volume examina, ao longo de nove capítulos, os efeitos das intervenções e políticas públicas relacionadas ao álcool sobre o consumo de bebidas alcoólicas4,5.
O Capítulo 1 apresenta uma visão geral das iniciativas da OMS voltadas para a redução dos danos associados ao consumo de álcool. Também define “política sobre álcool”, fornece a justificativa para as áreas de políticas de controle do álcool em nível populacional avaliadas no Handbook, bem como importantes considerações metodológicas.
Os Capítulos 2, 3, 4 e 5 apresentam a revisão das evidências sobre as políticas de intervenções para controle do álcool em nível populacional que foram avaliadas12: políticas de tributação e precificação; políticas para limitar a disponibilidade física; proibições de marketing de bebidas alcoólicas; e intervenções múltiplas e coordenadas de políticas sobre álcool.
Com base nas evidências revisadas no Capítulo 2, o Grupo de Trabalho concluiu que há evidências suficientes de que aumentos nos impostos especiais sobre bebidas alcoólicas, que resultam em elevação dos preços, levam à redução do consumo dessas bebidas. Além disso, há evidências suficientes de que a fixação de preços mínimos também reduz o consumo de bebidas alcoólicas. Entretanto, o Grupo de Trabalho identificou evidências inadequadas de que a proibição de descontos em bebidas alcoólicas reduza o consumo.
A partir das evidências revisadas no Capítulo 3, sobre restrições à disponibilidade de bebidas alcoólicas, o Grupo de Trabalho concluiu que há evidências suficientes de que restrições à densidade de pontos de venda de álcool e aos dias ou horários de comercialização, o aumento da idade mínima legal para compra ou consumo, bem como proibições totais de venda de álcool, levam à redução do consumo de bebidas alcoólicas.
No Capítulo 4, o Grupo de Trabalho define o marketing de bebidas alcoólicas, seus tipos, sua abrangência e papel econômico, e, em seguida, revisa as evidências sobre os efeitos das proibições de marketing de álcool no consumo. De forma geral, foram encontradas evidências suficientes de que proibições rigorosas de marketing de bebidas alcoólicas reduzem o consumo.
Levando em conta as evidências revisadas no Capítulo 5, o Grupo de Trabalho concluiu que há evidências suficientes de que monopólios governamentais e outras intervenções coordenadas de políticas sobre álcool levam à redução do consumo de bebidas alcoólicas.
O Capítulo 6 resumiu as evidências sobre os efeitos de estratégias e intervenções baseadas em serviços de saúde, incluindo rastreamento e intervenções breves, bem como intervenções psicossociais de longo prazo, com ou sem farmacoterapia, sobre o consumo de bebidas alcoólicas.
De forma semelhante ao Volume 20A, o Capítulo 7 complementa os capítulos anteriores ao apresentar o resumo de cada um deles. E, no Capítulo 8, são fornecidas as avaliações do Grupo de Trabalho.
Por fim, no Capítulo 9, o Grupo de Trabalho discute diversas considerações decorrentes das avaliações. Por meio de uma síntese geral dos Volumes 20A e 20B dos Iarc Handbooks, o leitor é lembrado de que, “Em conformidade com o referencial descrito no Preâmbulo dos Manuais da Iarc, a avaliação das intervenções em políticas sobre álcool em relação à incidência de câncer foi conduzida em um processo de duas etapas…” e que, com base nas conclusões do Grupo de Trabalho em ambos os volumes, “…é razoável inferir que intervenções em políticas sobre álcool poderiam levar à redução da incidência de câncer”.
Os Volumes 20A e 20B dos Manuais da Iarc sobre Prevenção de Câncer representam, em conjunto, uma contribuição significativa para a saúde pública global e para a prevenção do câncer. Para além de seu valor científico, os Volumes 20A e 20B reafirmam o princípio de que a prevenção eficaz do câncer requer colaboração multissetorial, articulando saúde, políticas públicas, educação e engajamento comunitário.
CONCLUSÃO
No Brasil, o consumo de álcool permanece elevado. As evidências compiladas pela Iarc oferecem orientações valiosas para a integração da prevenção do consumo de álcool nas estratégias nacionais de saúde. A incorporação do aconselhamento sobre álcool na atenção primária à saúde, a implementação de políticas de tributação e regulamentação do marketing, bem como o fortalecimento da educação comunitária, constituem medidas viáveis e alinhadas às conclusões da Iarc.
Os Manuais da Iarc sobre Prevenção de Câncer configuram-se como referências essenciais para pesquisadores, clínicos e formuladores de políticas comprometidos com a redução da carga global de câncer por meio do controle do álcool baseado em evidências.
AGRADECIMENTOS
À Dra. Beatrice Lauby-Secretan e à Dra. Susan Gapstur (Iarc, Lyon, França) pelas contribuições e pelo apoio ao desenvolvimento desta resenha.
CONTRIBUIÇÕES
Todos os autores contribuíram substancialmente na concepção e no delineamento do estudo; na obtenção, análise e interpretação dos dados; na redação e revisão; e aprovaram a versão final do manuscrito.
DECLARAÇÃO DE CONFLITOS DE INTERESSE
Nada a declarar.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Nenhum dado novo foi gerado ou analisado neste artigo.
FONTES DE FINANCIAMENTO
Thaís Cristina Esteves-Pereira é beneficiária de bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, processo n. 88881.126094/2025-01) e Alan Roger Santos-Silva recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp, processo n. 2024/20694-1).
REFERÊNCIAS
1. World Cancer Research Fund, American Institute for Cancer Research. Diet, nutrition, physical activity and cancer: a global perspective [Internet]. Reino Unido: WCRF; 2018 [acesso 2025 nov 30]. Disponível em: https://www.wcrf.org/wp-content/uploads/2024/11/Summary-of-Third-Expert-Report-2018.pdf
2. International Agency for Research on Cancer. Reduction or Cessation of Alcoholic Beverage Consumption [Internet]. Lyon: IARC, 2024 [acesso 2025 nov 30]. v. 20a Disponível em: https://publications.iarc.who.int/638
3. Gapstur SM, Bouvard V, Nethan ST, et al. The IARC Perspective on Alcohol Reduction or Cessation and Cancer Risk. N Engl J Med. 2023;389(26):2486-94. doi: https://doi.org/10.1056/nejmsr2306723
4. International Agency for Research on Cancer. Alcohol Policies [Internet]. Lyon: IARC, 2025 [acesso 2025 nov 30]. v. 20b. Disponível em: https://publications.iarc.who.int/653
5. Gapstur SM, Mariosa D, Neamtiu L, et al. The IARC perspective on the effects of policies on reducing alcohol consumption. N Engl J Med. 2025;392(17):1752-9. doi: https://doi.org/10.1056/NEJMsr2413289
6. World Health Organization. Global status report on alcohol and health and treatment of substance use disorders. Geneva, Switzerland: World Health Organization; 2024 [acesso 2025 nov 30]. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240096745
7. Ministério da Justiça e Segurança Pública (BR) [Internet]. Brasília, DF: MJSP; [sem data]. Álcool na Política sobre Drogas, 2025 set 24 [atualizado 2025 nov 7; acesso 2025 nov 30]. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/politicas-sobre-drogas/obid/alcool
8. Presidência da República (BR). Decreto nº 9.761, de 11 de abril de 2019. Política Nacional sobre Drogas [Internet]. Diário Oficial da União, Brasília, DF. 2019 abr 11; Edição 70-A; Seção 1 extra;7 [acesso 2025 nov 30]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/d9761.htm
9. Ministério da Saúde (BR), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis (Brasil). Vigitel Brasil 2006-2023: tabagismo e consumo abusivo de álcool: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal entre 2006 e 2023 [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023 [acesso 2025 nov 30]. 70 p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_tabagismo_consumo_abusivo_alcool.pdf
10. Rumgay H, Shield K, Charvat H, et al. Global burden of cancer in 2020 attributable to alcohol consumption: a population-based study. Lancet Oncol. 2021;22(8):1071-80. doi: https://doi.org/10.1016/S1470-2045(21)00279-5
11. Anderson BO, Berdzuli N, Ilbawi A, et al. Health and cancer risks associated with low levels of alcohol consumption. Lancet Public Health. 2023;8(1):e6-e7. doi: https://doi.org/10.1016/S2468-2667(22)00317-6
12. World Health Organization. More ways, to save more lives, for less money: World Health Assembly adopts more Best Buys to tackle noncommunicable diseases [Internet]. Geneva, Switzerland: World Health Organization; 2023 [acesso 2025 nov 30]. Disponível em: https://www.who.int/news/item/26-05-2023-more-ways--to-save-more-lives--for-less-money----world-health-assembly-adopts-more-best-buys--to-tackle-noncommunicable-diseases
Recebido em 6/1/2026
Aprovado em 7/1/2026
Editora-científica: Anke Bergmann. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777
![]()
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições, desde que o trabalho original seja corretamente citado.