ARTIGO ORIGINAL

 

Impacto da Quimioterapia Neoadjuvante na Qualidade de Vida Relacionada à Saúde em Mulheres com Câncer de Mama

Impact of Neoadjuvant Chemotherapy on Health-Related Quality of Life in Women with Breast Cancer

Impacto de la Quimioterapia Neoadyuvante en la Calidad de Vida Relacionada con la Salud en Mujeres con Cáncer de Mama

 

 

https://doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2026v72n2.5683

 

Noemi Trajano de França da Silva1; Simone Abrantes Saraiva2; Maurício Sant'Anna Junior3; Rejane Medeiros Costa4; Suzana Sales de Aguiar5; Daniele Medeiros Torres6; Erica Alves Nogueira Fabro7; Anke Bergmann8

 

1,3Instituto Federal de Educação, Ciência, Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ). Campus Realengo. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mails: noemitrajano5@gmail.com; mauricio.junior@ifrj.edu.br. Orcid iD: https://orcid.org/0009-0008-7498-5611; Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-0705-8841

2,4,6,7Instituto Nacional de Câncer (INCA), Hospital do Câncer III (HC III). Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mails: siabrantes2@gmail.com; rmcosta2@gmail.com; danieletorres_@hotmail.com; efabro@inca.gov.br. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-4926-7550; Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-8195-955X; Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-8306-6923; Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-0959-7678

5INCA, Coordenação de Pesquisa Clínica, Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: saguiar@inca.gov.br. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-1963-1294

8INCA, Coordenação de Pesquisa Clínica, Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico, Programa de Epidemiologia Clínica. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: abergmann@inca.gov.br. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777

 

Endereço para correspondência: Noemi Trajano de França da Silva. IFRJ. Rua Professor Carlos Wenceslau, 343 – Realengo. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. CEP 21715-000. E-mail: noemitrajano5@gmail.com

 

 

RESUMO

Introdução: A quimioterapia neoadjuvante, utilizada no tratamento do câncer de mama, pode ocasionar sintomas e comprometer a funcionalidade, repercutindo na qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS). Objetivo: Avaliar as alterações na QVRS ao longo da quimioterapia neoadjuvante em mulheres com câncer de mama. Método: Coorte prospectiva com mulheres diagnosticadas com câncer de mama, incluídas no grupo controle de um programa de pré-habilitação. A QVRS foi avaliada antes do início e após o término da quimioterapia neoadjuvante por meio dos questionários da European Organization for Research and Treatment of Cancer: Core 30 (EORTC QLQ-C30) e da Breast Cancer Module (EORTC QLQ-BR23). Foram realizadas análises descritivas e comparação das médias pelo teste t pareado. Resultados: Participaram 51 mulheres, com média de idade de 52 anos. Após a quimioterapia neoadjuvante, observou-se declínio significativo nas funções física (p=0,001) e sexual (p=0,016), além de agravamento da fadiga (p=0,042) e dos efeitos da terapia sistêmica (p=0,036). Em contrapartida, houve melhora na insônia (p=0,026), no estado de saúde global (p=0,048) e nos sintomas mamários (p=0,001). Conclusão: Durante a quimioterapia neoadjuvante para o câncer de mama, mulheres apresentaram alterações relevantes na QVRS, caracterizadas por declínio funcional e intensificação de sintomas sistêmicos, concomitantes à melhora de sintomas mamários e do estado de saúde global, ressaltando a importância do monitoramento contínuo da QVRS ao longo do tratamento.

Palavras-chave: Neoplasias da Mama/terapia; Terapia Neoadjuvante/efeitos adversos; Qualidade de Vida; Saúde da Mulher.

 

 

ABSTRACT

Introduction: Neoadjuvant chemotherapy (NACT), used in the treatment of breast cancer, may cause symptoms and impair functionality, with repercussions on health-related quality of life (HRQoL). Objective: To evaluate changes in HRQoL over the course of neoadjuvant chemotherapy in women with breast cancer. Method: Prospective cohort study included women diagnosed with breast cancer who were allocated to the control group of a prehabilitation program. HRQoL was assessed before initiation and after completion of NACT using the European Organization for Research and Treatment of Cancer questionnaires: Core 30 (EORTC QLQ-C30) and Breast Cancer Module (EORTC QLQ-BR23). Descriptive analyses were performed, and mean scores were compared using the paired t-test. Results: Fifty-one women participated in the study, with a mean age of 52 years. After NACT, significant declines were observed in physical (p=0.001) and sexual function (p=0.016), as well as worsening fatigue (p=0.042) and systemic therapy side effects (p=0.036). Conversely, improvements were found in insomnia (p=0.026), global health status (p=0.048), and breast symptoms (p=0.001). Conclusion: During neoadjuvant chemotherapy for breast cancer, women experienced relevant changes in HRQoL, characterized by functional decline and increased systemic symptoms, alongside improvement in breast-related symptoms and global health status, highlighting the importance of continuous HRQoL monitoring throughout treatment.

Key words: Breast Neoplasms/therapy; Neoadjuvant Therapy/adverse effects; Quality of Life; Women's Health.

 

 

RESUMEN

Introducción: La quimioterapia neoadyuvante, utilizada en el tratamiento del cáncer de mama, puede provocar síntomas y comprometer la funcionalidad, con repercusiones en la calidad de vida relacionada con la salud (CVRS). Objetivo: Evaluar los cambios en la CVRS a lo largo de la quimioterapia neoadyuvante en mujeres con cáncer de mama. Método: Cohorte prospectiva con mujeres diagnosticadas con cáncer de mama, incluidas en el grupo control de un programa de prehabilitación. La CVRS se evaluó antes del inicio y después de la finalización de la quimioterapia neoadyuvante mediante los cuestionarios de la European Organization for Research and Treatment of Cancer: Core 30 (EORTC QLQ-C30) y Breast Cancer Module (EORTC QLQ-BR23). Se realizaron análisis descriptivos y la comparación de medias se efectuó mediante la prueba t pareada. Resultados: Participaron 51 mujeres, con una edad promedio de 52 años. Tras la quimioterapia neoadyuvante, se observó descensos significativos en las funciones física (p=0,001) y sexual (p=0,016), así como un empeoramiento de la fatiga (p=0,042) y de los efectos de la terapia sistémica (p=0,036). Por otro lado, se identificó mejoría del insomnio (p=0,026), del estado de salud global (p=0,048) y de los síntomas mamarios (p=0,001). Conclusión: Durante la quimioterapia neoadyuvante para el cáncer de mama, las mujeres presentaron cambios relevantes en la CVRS, caracterizados por un declive funcional e intensificación de síntomas sistémicos, concomitantes con la mejoría de los síntomas mamarios y del estado de salud global, lo que refuerza la importancia del seguimiento continuo de la CVRS a lo largo del tratamiento.

Palabras clave: Neoplasias de la Mama/terapia; Terapia Neoadyuvante/efectos adversos; Calidad de Vida; Salud de la Mujer.

 

 

INTRODUÇÃO

O câncer de mama é a neoplasia maligna mais incidente entre as mulheres no Brasil, configurando-se como a principal causa de morte por câncer nesse grupo populacional, considerando que, para cada ano do triênio 2026-2028, foram estimados cerca de 518 mil casos novos de câncer no país, excluindo-se o câncer de pele não melanoma1,2. As estratégias terapêuticas variam conforme o estadiamento clínico e as características biológicas do tumor, envolvendo modalidades locorregionais, como cirurgia e radioterapia, e sistêmicas, como quimioterapia, hormonioterapia e imunoterapia3,4.

 

A quimioterapia neoadjuvante, administrada antes do tratamento cirúrgico, é amplamente empregada com o objetivo de reduzir o volume tumoral, possibilitar cirurgias mais conservadoras e contribuir para melhores desfechos prognósticos5-7. Entretanto, os efeitos adversos associados a essa modalidade terapêutica podem comprometer a funcionalidade e repercutir negativamente na qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS), manifestando-se por sintomas como fadiga, náuseas, alterações na função sexual e sintomas mamários8,9.

 

A QVRS é definida como a percepção do indivíduo acerca de sua condição física, emocional e social diante do diagnóstico e do tratamento do câncer, sendo reconhecida como um importante indicador de saúde e de resposta ao cuidado oncológico. A avaliação sistemática desse desfecho tem assumido papel central no acompanhamento clínico de pessoas com câncer, permitindo uma compreensão mais abrangente dos impactos do tratamento para além dos desfechos clínicos tradicionais10.

 

Nesse contexto, instrumentos validados, como o questionário European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnaire: Core 30 (EORTC QLQ-C30) e seu módulo específico para câncer de mama, o Breast Cancer Module (EORTC QLQ-BR23), possibilitam o monitoramento de alterações funcionais e sintomatológicas ao longo do tratamento, subsidiando o planejamento e a adequação de intervenções clínicas10.

 

Apesar da consolidação de questionários validados que avaliam a qualidade de vida, a literatura indica que a incorporação destas medidas relatadas pelo paciente ainda ocorre de forma heterogênea no atendimento assistencial e, muitas vezes, é limitada ao contexto de pesquisa clínica, em razão da heterogeneidade metodológica e falta de familiaridade dos profissionais com a interpretação desses instrumentos11. Ressalta-se ainda que não há consenso global quanto à melhor forma de analisar a qualidade de vida, o que contribui para a diversidade da mensuração desse desfecho12.

 

No cenário brasileiro, pesquisas têm apontado a influência negativa da quimioterapia sobre a QVRS das mulheres com câncer de mama12. Entre as análises nacionais com delineamento prospectivo, destaca-se um estudo observacional realizado com 140 mulheres no Nordeste do Brasil, avaliadas no ciclo intermediário e ao término da quimioterapia, o qual evidenciou declínio significativo em diversos domínios da qualidade de vida ao longo do tratamento oncológico13. De modo semelhante, uma coorte nacional com 33 mulheres submetidas à quimioterapia adjuvante observou redução no estado geral de saúde e em múltiplas escalas funcionais, além de aumento de sintomas relacionados ao tratamento14.

 

Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo avaliar o impacto quimioterapia neoadjuvante na QVRS em mulheres com câncer de mama.

 

 

MÉTODO

Estudo de coorte prospectiva, inserido no projeto intitulado “Programa de pré-habilitação para mulheres indicadas ao tratamento cirúrgico do câncer de mama”. O estudo foi conduzido no Serviço de Fisioterapia do Hospital do Câncer III do Instituto Nacional de Câncer (INCA), unidade de referência nacional para o tratamento do câncer de mama, localizada no Rio de Janeiro (RJ), no período de janeiro de 2022 a março de 2025.

 

Foram incluídas mulheres randomizadas para o grupo controle do projeto original, que atenderam aos seguintes critérios de elegibilidade: idade entre 18 e 80 anos, diagnóstico de câncer de mama e indicação de tratamento oncológico com intenção curativa. Foram excluídas as pacientes com estadiamento clínico IV ou com disfunções que impossibilitassem a realização de exercícios físicos.

 

As variáveis sociodemográficas (idade, raça/cor da pele, estado civil e escolaridade), clínicas (peso e altura para cálculo do índice de massa corporal – IMC – e estadiamento clínico) e relacionadas ao tratamento (tipo de quimioterapia e número de ciclos realizados) foram obtidas por meio da revisão de prontuários físicos e eletrônicos.

 

A QVRS foi avaliada por meio dos questionários EORTC QLQ-C30 e de seu módulo específico para câncer de mama, o EORTC QLQ-BR23, ambos traduzidos e validados para o português. O EORTC QLQ-C30 é composto por 30 itens distribuídos em cinco escalas funcionais (física, geral, cognitiva, emocional e social), três escalas de sintomas (fadiga, dor e náuseas/vômitos), seis itens isolados (dispneia, insônia, perda de apetite, constipação, diarreia e dificuldades financeiras) e uma escala de estado de saúde global. O módulo QLQ-BR23 contém 23 itens, organizados em escalas funcionais (imagem corporal, função sexual, satisfação sexual e perspectivas futuras) e escalas de sintomas (efeitos da terapia sistêmica, sintomas na mama, sintomas no braço e queda de cabelo).

 

O período de referência dos questionários de QVRS corresponde às experiências vivenciadas pelas participantes nos sete dias anteriores à aplicação, exceto para o domínio de satisfação sexual, cujo recorte temporal refere-se às quatro semanas anteriores. Os itens das escalas funcionais e de sintomas são classificados em escala de Likert15 de quatro pontos, variando de 1 (“não”) a 4 (“muito”), enquanto a escala de estado de saúde global utiliza uma escala de Likert15 de sete pontos, variando de 1 (“péssima”) a 7 (“ótima”). Os escores das subescalas foram padronizados em uma escala de 0 a 100, sendo que valores mais elevados nas escalas funcionais e no estado de saúde global indicam melhor qualidade de vida, enquanto escores mais altos nas escalas de sintomas refletem maior intensidade sintomatológica16.

 

Os questionários foram aplicados em dois momentos: antes do início da quimioterapia neoadjuvante (avaliação de inclusão) e após o último ciclo do tratamento quimioterápico (avaliação pós-QT), realizada durante a consulta institucional de seguimento. A análise descritiva da população do estudo foi realizada por meio de medidas de tendência central e dispersão para as variáveis contínuas e de distribuições de frequência para as variáveis categóricas. Para a comparação das médias dos escores de QVRS entre os dois momentos de avaliação, foi utilizado o teste t17 pareado, adotando-se nível de significância estatística de p<0,05.

 

O estudo foi desenvolvido de acordo com os preceitos éticos que regem as pesquisas envolvendo seres humanos, estabelecidos pela Resolução n.º 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde18. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do INCA, sob o número de parecer 4.576.731 (CAAE: 42627521.6.0000.5274) e foi registrado na plataforma ClinicalTrials.gov (identificador NCT04861220). Todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo-lhes assegurado o direito de desistir da participação a qualquer momento, sem prejuízo ao tratamento oncológico realizado na instituição.

 

RESULTADOS

Atenderam aos critérios de elegibilidade 71 mulheres, e destas, 20 foram consideradas perda de seguimento: 13 por não realizar a avaliação de término da quimioterapia, 4 pela mudança na proposta terapêutica e 3 que evoluíram para estadiamento IV no período de seguimento. A taxa de perda de seguimento foi de 28,2%, dado que deve ser considerado na interpretação dos achados, uma vez que modificações no curso terapêutico e na evolução clínica podem ter influenciado o perfil das participantes que não completaram o seguimento, configurando potencial viés de atrito. Desse modo, a análise final contemplou 51 mulheres, com média de idade de 52,1 anos (desvio-padrão 12,6).

 

Em relação às características sociodemográficas, 78,4% das participantes se autodeclararam pretas ou pardas, 52,9% não possuíam companheiro e 82,4% apresentavam ensino fundamental completo. Quanto às características clínicas, 80,4% das mulheres apresentavam estadiamento clínico avançado (≥IIB) e 64,7% tinham IMC superior a 25 kg/m², sendo 43,1% classificadas como obesas. No que se refere ao tratamento, 66,7% das pacientes realizaram o esquema quimioterápico completo, composto por quatro ciclos de doxorrubicina e ciclofosfamida (AC), seguidos de quatro ciclos de um taxano (paclitaxel ou docetaxel). O número total de ciclos de quimioterapia variou de 3 a 16, com mediana de 8 ciclos (Tabela 1).

 

Os escores de QVRS antes e após a quimioterapia neoadjuvante estão apresentados na Tabela 2. No EORTC QLQ-C30, as escalas funcionais com maiores escores foram função social, função geral e função física. Entretanto, observou-se declínio de 8,6 pontos na função física após a quimioterapia (p=0,001), indicando piora funcional estatisticamente relevante. Em relação à escala de sintomas, identificou-se aumento médio de 7,2 pontos na fadiga (p=0,042), sugerindo intensificação sintomática após a quimioterapia neoadjuvante, tornando-se um dos sintomas mais expressivos nesse período. Por outro lado, a insônia, que apresentou maior escore na avaliação inicial, apontou redução média de 13,0 pontos após o tratamento (p=0,026), configurando melhora clinicamente relevante. Adicionalmente, foi observada elevação média de 7,2 pontos no estado de saúde global (p=0,048).

 

No módulo específico EORTC QLQ-BR23, verificou-se redução média de 9,4 pontos na função sexual após a quimioterapia neoadjuvante (p=0,016), bem como aumento médio de 5,7 pontos nos efeitos da terapia sistêmica (p=0,036). Em contrapartida, observou-se declínio médio de 22,2 pontos nos sintomas mamários (p<0,001), indicando melhora clínica expressiva nesse domínio. As escalas de satisfação sexual e queda de cabelo não foram incluídas na análise comparativa em razão do número reduzido de respostas (n=4 e n=1, respectivamente).

 

Tabela 1. Características sociodemográficas, clínicas e de tratamento das participantes do estudo (n=51)

Variável

n (%)

Idade (anos), média (DP)

52,1 (12,6)

Raça/cor da pele

 

Branca

11 (21,6)

Pretas e Pardas

40 (78,4)

Estado civil

 

Com companheiro

24 (47,1)

Sem companheiro

27 (52,9)

Escolaridade

 

Fundamental completo

42 (82,4)

Fundamental incompleto

9 (17,6)

Estadiamento

 

I e IIA

10 (19,6)

IIB e IIIA

23 (45,1)

IIIB e IIIC

18 (35,3)

Índice de massa corpórea (IMC)

 

Normal (18,5 a 24,9 kg/m²)

18 (35,3)

Sobrepeso (25 a 29,9 kg/m²)

11 (21,6)

Obesidade (≥30 kg/m²)

22 (43,1)

Tipo de quimioterapia

 

Esquema completo (4 AC + 4 T)

34 (66,7)

Outros esquemas

17 (33,3)

Números de ciclos, mediana (min.–máx.)

8 (3-16)

Legendas: n = número absoluto; DP = desvio-padrão; mín. = mínimo; máx. = máximo; AC = doxorrubicina + ciclofosfamida.

 

 

 

Tabela 2. Avaliação da QVRS pelo questionário QLQ C30 e QLQ BR23 no momento da inclusão e na avaliação após QTneo (n=51)

EORTC-QLQ C30

Inclusão

Após QT

Diferença entre início e após QTneo

p

Escalas Funcionais

Média (DP)

Média (DP)

Média (DP)

Função física

82,2 (20,6)

73,6 (21,5)

-8,6 (18,1)

0,001*

Função geral

82,7 (24,7)

74,8 (31,2)

-7,9 (29,5)

0,063

Função cognitiva

73,5 (30,9)

74,5 (26,7)

1,0 (24,4)

0,775

Função emocional

56,5 (29,5)

60,9 (31,0)

4,4 (30,4)

0,305

Função social

83,7 (25,5)

85,6 (25,6)

1,9 (31,6)

0,659

Escalas de sintomas/itens

 

 

 

 

Fadiga

30,9 (27,6)

38,1 (25,0)

7,2 (24,6)

0,042*

Dor

36,6 (32,5)

37,3 (30,5)

0,7 (40,5)

0,909

Dispneia

18,3 (30,1)

18,3 (30,8)

0 (38,3)

1,000

Insônia

43,1 (39,6)

30,1 (37,9)

-13,0 (40,6)

0,026*

Perda de apetite

13,1 (23,2)

20,9 (35,3)

7,8 (36,9)

0,135

Náusea e vomito

7,5 (16,4)

9,2 (18,7)

1,7 (22,7)

0,609

Constipação

15,0 (31,5)

15,7 (27,8)

0,7 (33,7)

0,890

Diarreia

5,9 (20,8)

13,1 (25,0)

7,2 (29,3)

0,086

Preocupações financeiras

26,1 (39,1)

24,2 (35,3)

-1,9 (45,4)

0,759

Estado de saúde global

65,5 (22,8)

72,7 (18,6)

7,2 (25,4)

0,048*

EORTC-QLQ BR23

 

 

 

 

Escalas Funcionais

Média (DP)

Média (DP)

Média (DP)

p

Imagem corporal

84,2 (22,4)

76,3 (28,4)

-7,9 (32,5)

0,091

Função sexual

29,7 (30,6)

20,3 (25,2)

-9,4 (27,1)

0,016*

Perspectivas futuras

38,6 (39,1)

49,0 (36,7)

10,4 (42,9)

0,088

Escalas de sintomas/itens

 

 

 

 

Efeitos da terapia sistêmica

22,5 (17,0)

28,2 (18,4)

5,7 (18,8)

0,036*

Sintomas da mama

37,4 (31,0)

15,2 (19,8)

-22,2 (27,7)

<0,001**

Sintomas no braço

15,7 (20,3)

17,2 (19,8)

1,5 (24,2)

0,655

Legendas: DP = desvio-padrão; QT = quimioterapia; QTneo = quimioterapia neoadjuvante; *p<0,05; **p<0,001; EORTC-QLQ C30 = European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnaire: Core 30; EORTC-QLQ BR23 = EORTC-QLQ Breast Cancer Module 23.

 

 

DISCUSSÃO

No presente estudo, a avaliação da QVRS por meio do EORTC QLQ-C30 evidenciou declínio significativo da função física ao longo da quimioterapia neoadjuvante (p=0,001). Esse achado é consistente com o observado em uma coorte prospectiva francesa composta por 100 mulheres com câncer de mama, na qual a função física apresentou redução significativa entre as avaliações realizadas antes da quimioterapia e ao término do tratamento, passando de 89 (±14) para 79 (±19) pontos19. De forma semelhante, um estudo conduzido na Polônia com 211 mulheres identificou importante comprometimento da função física após a quimioterapia, com redução do escore médio de 81,3 (intervalo de confiança – IC 95%: 78,5–84,1) para 57,2 (IC 95%: 54,2–60,2), também com significância estatística (p<0,001)20. Esses achados corroboram os resultados do presente estudo e reforçam a associação negativa entre a quimioterapia e o desempenho funcional. Embora essencial para o controle da doença, a quimioterapia pode acarretar efeitos adversos que impactam a função física e a qualidade de vida, destacando a relevância do monitoramento contínuo desse domínio e do planejamento de intervenções específicas ao longo do tratamento.

 

No que se refere à escala de sintomas do QLQ-C30, observou-se aumento significativo da fadiga após a quimioterapia neoadjuvante (p=0,042), resultado alinhado ao estudo prospectivo francês previamente citado, no qual a fadiga se intensificou ao final do tratamento, com aumento do escore médio de 27,0 (±21,0) para 50,0 (±26,0)19. A fadiga relacionada ao câncer é um sintoma frequente e multifatorial, caracterizada por sensação persistente de cansaço não completamente aliviada pelo repouso21. Essa condição pode desencadear redução do nível funcional e descondicionamento muscular, estabelecendo um ciclo que perpetua a intolerância ao exercício e o comprometimento da QVRS22.

 

Cabe destacar que, na amostra estudada, 64,7% das mulheres apresentavam IMC acima do recomendado, sendo 43,1% classificadas como obesas. Esse dado merece atenção, uma vez que a obesidade está associada a mecanismos inflamatórios e metabólicos que podem favorecer tanto a progressão tumoral quanto a intensificação de sintomas durante o tratamento13. Evidências de um estudo prospectivo com 565 mulheres com câncer de mama demonstraram que pacientes com obesidade relataram níveis significativamente mais elevados de fadiga ao término da quimioterapia (p=0,002)23, o que pode ter contribuído para os achados observados no presente estudo.

 

Em consonância com esses resultados, o estudo polonês com 211 mulheres submetidas à quimioterapia neoadjuvante identificou comprometimento de todas as funções e agravamento global dos sintomas avaliados pelo QLQ-C30 (p<0,001), destacando a função física como o domínio mais afetado e a fadiga como o sintoma predominante após o tratamento20. Esse padrão reforça os achados do presente estudo, que também evidenciou declínio funcional e intensificação da fadiga ao longo da quimioterapia neoadjuvante.

 

A insônia, definida como dificuldade para iniciar ou manter o sono, é uma queixa frequente na população oncológica, acometendo entre 30% e 50% dos pacientes22. No presente estudo, esse sintoma apresentou o maior escore na avaliação inicial, evidenciando seu impacto precoce. Esse achado está em consonância com estudos nacionais de delineamento transversal, nos quais a insônia foi altamente prevalente no período pré-tratamento, com médias de 36,1 (±41,1) em um estudo com 302 mulheres24 e de 37,6 (±41,8) em um estudo com 961 participantes25. A redução significativa da insônia após a quimioterapia observada neste estudo pode estar relacionada à diminuição da sintomatologia mamária e à adaptação ao tratamento, embora esse achado deva ser interpretado com cautela, considerando que a insônia pode influenciar negativamente outros desfechos, como fadiga, dor, cognição e QVRS21.

 

Entre as pacientes acompanhadas nesta pesquisa, observou-se uma melhora autorrelatada no item estado de saúde global (p=0,048), resultado que diverge dos frequentemente reportados na literatura19,20, que identificaram prejuízo nesta escala (p=0,013 e p<0,001, respectivamente). Essa divergência pode estar relacionada a diferenças socioculturais, étnicas e contextuais entre as populações estudadas, além de variações no momento da avaliação pós-tratamento. Enquanto a coorte francesa realizou a avaliação duas semanas após o término da quimioterapia19, o estudo polonês adotou um intervalo de três semanas20, o que pode influenciar a percepção subjetiva do estado de saúde global. Além disso, é possível que esse achado reflita um processo de adaptação psicológica ao tratamento oncológico, no qual, mesmo diante da presença de sintomas persistentes, as pacientes percebam melhora global associada à sensação de conclusão de uma etapa terapêutica.

 

No módulo específico QLQ-BR23, a função sexual foi o domínio funcional mais comprometido, com declínio significativo após a quimioterapia neoadjuvante (p=0,016), evidenciando o impacto do tratamento na esfera sexual feminina. Esse achado é consistente com estudos nacionais e internacionais20,26,27. Em estudo prospectivo brasileiro com 80 mulheres em tratamento quimioterápico, observou-se redução significativa dos escores de função sexual (p<0,001)28. Resultados semelhantes foram descritos em estudo português, no qual houve declínio da função sexual ao longo do primeiro ano após o diagnóstico, com discreta recuperação ao longo de três anos, mantendo significância estatística (p=0,042)27.

 

O domínio “efeitos da terapia sistêmica” do QLQ-BR23, que abrange sintomas relacionados à toxicidade do tratamento, como alterações no paladar, náuseas e queda de cabelo, apresentou aumento significativo dos escores no presente estudo (p=0,016). Esse achado está em consonância com evidências nacionais que demonstraram agravamento expressivo desses sintomas durante a quimioterapia neoadjuvante (p<0,001)15,26 refletindo o impacto negativo da toxicidade sistêmica na QVRS e a importância do manejo adequado dessas queixas durante o tratamento oncológico.

 

A maioria das participantes (66,7%) realizou o esquema quimioterápico completo composto por quatro ciclos de doxorrubicina e ciclofosfamida associados a quatro ciclos de um taxano (paclitaxel ou docetaxel), combinação amplamente utilizada com o objetivo de melhorar a sobrevida. Contudo, esse regime não está isento do risco de efeitos adversos sistêmicos, o que pode explicar, em parte, os resultados observados13.

 

Em relação aos sintomas mamários, observou-se redução expressiva dos escores após a quimioterapia neoadjuvante (p<0,001), resultado consistente com estudo nacional realizado no Nordeste brasileiro com 140 mulheres, no qual também foi identificada melhora clínica autorreferida durante o tratamento (p<0,001)13. A concordância entre os achados reforça o potencial benefício da quimioterapia neoadjuvante na redução da sintomatologia local, com repercussão positiva na qualidade de vida.

 

Apesar da relevância dos achados, algumas limitações devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A ausência de um grupo comparador impede a inferência de relações causais entre a quimioterapia neoadjuvante e as mudanças observadas na QVRS, restringindo a análise à descrição de variações ao longo do tratamento. Além disso, o tamanho amostral relativamente reduzido e o caráter unicêntrico do estudo limitam a generalização dos resultados para outras populações. Ainda assim, a avaliação longitudinal realizada em um cenário assistencial real permitiu identificar, de forma consistente, domínios funcionais e sintomas mais sensíveis às mudanças durante a quimioterapia neoadjuvante. Esses achados reforçam a importância do monitoramento sistemático da qualidade de vida ao longo do tratamento oncológico e podem subsidiar o planejamento de intervenções clínicas oportunas, especialmente no manejo da fadiga, da função física e da saúde sexual, contribuindo para uma abordagem mais integral e centrada na paciente. Destaca-se a importância da inserção de programas de reabilitação física, acompanhamento nutricional e suporte psicológico, com atenção multiprofissional voltada à prevenção e redução do declínio funcional.

 

CONCLUSÃO

Durante a quimioterapia neoadjuvante para o câncer de mama, mulheres apresentaram declínio significativo da função física e da função sexual, bem como melhora autorreferida da insônia, do estado de saúde global e dos sintomas mamários, concomitantemente ao agravamento da fadiga e dos efeitos da terapia sistêmica. Esses achados evidenciam a complexidade das mudanças vivenciadas ao longo do tratamento e reforçam a importância do acompanhamento contínuo da qualidade de vida para promover integralidade no cuidado.

 

AGRADECIMENTOS

À equipe do HC III/INCA pelo apoio logístico e institucional durante a realização do estudo.

 

 

CONTRIBUIÇÕES

Todos os autores contribuíram substancialmente na concepção e no planejamento do estudo; na obtenção, análise e interpretação dos dados; na redação e revisão crítica; e aprovaram a versão final a ser publicada.

 

 

DECLARAÇÃO DE CONFLITOS DE INTERESSE

A autora Anke Bergmann declara potencial conflito de interesses pela condição de ser a editora-científica da Revista Brasileira de Cancerologia do INCA. Os demais autores não possuem conflito de interesses.

 

 

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todos os conteúdos subjacentes ao texto do artigo estão contidos no manuscrito.

 

 

FONTES DE FINANCIAMENTO

Não há.

 

 

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Recebido em 12/1/2026

Aprovado em 10/3/2026

 

Editora-executiva: Letícia Casado. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0001-5962-8765

 

 

 

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