Diagnóstico Tardio do Câncer de Boca: Onde Estamos Errando?

Autores

  • Renata Tucci Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto de Saúde de Nova Friburgo (ISNF), Curso de Odontologia, Disciplinas de Estomatopatologia e Patologia Oral. Nova Friburgo (RJ), Brasil. https://orcid.org/0000-0003-2295-6305
  • Hugo Wermelinger Zavoli Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto de Saúde de Nova Friburgo (ISNF), Curso de Odontologia, Disciplinas de Estomatopatologia e Patologia Oral. Nova Friburgo (RJ), Brasil. https://orcid.org/0009-0009-6208-8080
  • Maria Carolina de Lima Jacy Monteiro Barki Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto de Saúde de Nova Friburgo (ISNF), Curso de Odontologia, Disciplinas de Estomatopatologia e Patologia Oral. Nova Friburgo (RJ), Brasil. https://orcid.org/0000-0001-9499-0591
  • Rebeca de Souza Azevedo Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto de Saúde de Nova Friburgo (ISNF), Curso de Odontologia, Disciplinas de Estomatopatologia e Patologia Oral. Nova Friburgo (RJ), Brasil. https://orcid.org/0000-0002-3550-3914

DOI:

https://doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2026v72n3.5642

Palavras-chave:

Neoplasias Bucais, Diagnóstico Tardio, Atenção Primária à Saúde, Detecção Precoce de Câncer, Saúde Pública

Resumo

O diagnóstico tardio do câncer de boca permanece como um dos mais persistentes desafios, refletindo falhas estruturais que atravessam a atenção primária, a formação profissional e as políticas de prevenção. Apesar da ampla disponibilidade de conhecimento científico sobre fatores de risco, sinais iniciais e métodos de rastreamento, a realidade epidemiológica demonstra que a maior parte dos casos ainda é identificada em estádios avançados, quando as possibilidades terapêuticas são mais complexas e onerosas, e a sobrevida significativamente reduzida. Este artigo de opinião discute criticamente as causas centrais desse cenário, argumentando que o problema não reside apenas na falta de acesso, mas também na insuficiente integração entre vigilância, cuidado clínico e educação em saúde. A análise enfatiza a necessidade de revisar modelos assistenciais, fortalecer a capacitação de profissionais da linha de frente — especialmente aqueles da atenção primária — e ampliar estratégias de comunicação social sobre riscos e sintomas precoces. Ao destacar lacunas históricas e estruturais, o texto propõe caminhos possíveis para um enfrentamento mais efetivo, baseado em políticas públicas consistentes e em práticas clínicas que valorizem o diagnóstico oportuno como eixo fundamental para reduzir morbimortalidade.

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Publicado

2026-07-08

Como Citar

1.
Tucci R, Zavoli HW, Barki MC de LJM, Azevedo R de S. Diagnóstico Tardio do Câncer de Boca: Onde Estamos Errando?. Rev. Bras. Cancerol. [Internet]. 8º de julho de 2026 [citado 11º de julho de 2026];72(3):e-045642. Disponível em: https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/5642

Edição

Seção

ARTIGOS DE OPINIÃO